01/01

 

O velho

do novo de um dia após o outro

A chuva que apaga

E proclama a virada

O silencio do tempo

Da zero hora

O branco no fim

Se dilui em cores

A vida que aflige

Em criar a mudança

A dança que apruma

A expectativa

Os fogos confirmam

A mesa virada

Em copos virados

A promessa de vida

Que a vida da vinda

Se torna indevida

O dia seguinte

Comprova a rotina

De um velho dia de outro dia após

o novo

Liquidações de fim de ano

 

Consumir: v.t. 1. Gastar até o fim; aniquilar. 2. Afligir-se, despender, absorver. 4. Ralar-se.

 

Fetiche: s.m. 1. Objeto a que se atribui poder sobrenatural e a que presta culto.

 

Acabou. Meu 13º salário chegou ao fim. Havia planejado mil coisas antes de recebê-lo e, no entanto, ele se foi sem que eu me desse conta. Falando nisso, tirando as contas que paguei, ele foi diluído silenciosamente em pequenas regalias. Quando lembro que a expectativa pela sua chegada me trouxe grandes idéias à mente...Pesquisei preços de câmeras digitais, tracei roteiros turísticos para a virada, escolhi o trajeto cicloviário que faria com a bicicleta que não comprei.

Mas, sem perceber, utilizei estas notas quase inesperadas para reconstruir meu cotidiano com um pouco mais de dignidade. Tudo bem, não viajei e não comprei praticamente nada (exceto cuecas e meias). Em contrapartida, consegui adiar consideravelmente a hora da saideira, substituí o amendoim sem pele por salame e batata frita, tomei gatorades para curar a ressaca e, antes de voltar para casa, podia recorrer ao táxi se necessário. E o palco disso tudo foram os bares que já frequentava antes do 13º chegar.

Até que não foi assim de todo o mal enquanto durou. Liquidei sem remorso certas mercadorias e realizei promoções absurdas em meu cardápio. Mas hoje estou sem a câmera, a bicicleta e ainda não saí do quarteirão de casa. O que me resta agora é esperar pelo 1º salário de 2008 e voltar a maneirar no boteco...   

Todo mundo se mete a poeta

 

Rima amor e dor e acende o cigarro.

Da fumaça mal tragada, a pose se incendeia

Alarme falso, meu caro reles

Tu não passas de um farsante metido a poeta

 

Saiba que é do que ainda não sabes

Que se formam os melhores versos

A resposta está sempre na ausência de sentido

E a tua petulância é a crase antes dos verbos

 

 

Se

 

Venda-se aos olhos de quem te compra

Compre-se ao preço de quem te venda

Empreste-se ao risco de não ser devolvido

Arrisque-se a ser de volta emprestado

E fuja-se...

Revoada

 

Mudei de endereço

Fui e voltei sem deixar rastros

E as caixas que empacoto a cada mudança continuam vazias

 

De volta à casa que não tive

Encontrei o meu fiador inato

Estava à minha espera, com o contrato da ausência em suas mãos

 

Não assinei

Hesito em encontrar um novo lar

Onde as cartas que nunca me chegam tenham que ser lidas de fato

 

Retorno ao ponto de partida

Minha casa é o meu corpo

E o número em minha fachada nunca dirá nada sobre o meu interior

Uma nota a J.P. e Simone

 

Os homens que cultivam um segundo travesseiro acordam mais satisfeitos

Pois é nele que se encontra o conforto que escapa à lógica da unidade

Um travesseiro é insuficiente para repousar o corpo, ninado conforme as várias penas que o suportam

O travesseiro-extra, rígido ou flexível, nos dá a dose que falta àquele que diariamente só nos apóia a cabeça

É neste segundo travesseiro inerte que se encontra a posição volátil de nossos desejos

A ausência do segundo travesseiro é insone, desconfortável como a espera, estéril como a insatisfação

Suspeito até que não haja homens que durmam felizes sem um segundo travesseiro entre as pernas

Alvíssaras à inexistência do credo

 

Deus, onde estás o teu mandado divino

Contra as luzes que fizeste sobre as córneas de vossos filhos?

Manda, manda, ó Deus, o teu recado genuíno

Para que ninguém mais duvides de teu mandato vitalício

 

Deus, cadê tu que não se opõe

Ao pão e ao vinho que derramas com desigualdade?

Chega, chega, ó Deus, de fazer de nossa fé

O teu desdém sobre as pedras que lançaste no vosso reino

 

Adeus, já que não se atreve a dar as cartas

E não me venhas com verdades infundadas

Pois se não penso em ti o seu mandato é mandado às trevas

Sempre um vazio

 

Enfio-me goela abaixo antes de dormir

Meio sem sono, com meio Prozac

A palavra de auto-despedida é um pedido

Meio encabulado com meias palavras para o dia seguinte

 

Giro em torno de mim enquanto o sonho não vem

Giro, paro e respiro até o sono

Enterrar o sonho palpável de antes

Da meia noite  

 

Mas meia noite é assim

Sempre meio sem graça

Seu silêncio me parte ao meio

Um pouco de sono, um pouco de sonho

 

E o resto são só meias palavras

Com meios Prozacs que me fazem por inteiro

O dia inteiro...

Fixação prefixal

 

Você é minha pretensão de ter o que não tive quando predeterminei que seria inviável pretender alguma coisa além do que eu posso. Mas pensei: não posso pretender algo à minha altura se pretensiosamente almejo o impossível. Você sabe que pretendo te presentear com as presunções insanas das preliminares pretendidas por toda mulher com os seus predicados. Então pare de pregar esta opinião pré-fabricada de prefácios infundados pela predisposição em inaceitar as preferências que predominam em minha prece. Pense. Estou preparado para prová-la com a precisão e minúcia da primeira vez...  

Sexo, drogas e um pouco de cada um de nós

 

Em ruas incrédulas e calçadas da fama, há um deles fumando cigarro. Viciado, mal-sucedido ou safado há sempre os de porre ou procurando emprego, os que portam narcóticos à venda ou para consumo, que vestem e falam inglês, utópicos, políticos, anarquistas, nada amistosos ou sem dom aparente. Que mentem e choram, que sonham e têm colapsos, que vendem e compram imagens. Como esquecer os Industriais, parasitas temporários, sem sexo, bisexos, heterosexos, bailarinos, mulherengos, apaixonados, herbívoros, canibais de capital.  Há, de fato, os que não querem nada ou que nunca quiseram ser um deles. Há os assíduos das rádios e domingos, os obscuros, os telepáticos, os funcionários públicos. Há até os que estão em greve, bloqueados pela ineficiência de seus antigos poderes criativos. Em coma e em cana há aos montes. Mas também há os que se tornaram professores, geralmente os de 50 ou dos 60. Há os que são de agora em diante, há os besouros, as donzelas, os infláveis, os sem juízo, os na escada ou no paraíso. Há os amigos do fim, os intelectos, os cegos, os perplexos e os simpáticos com o demônio. Embora raros, há sempre os que continuam sobre as púrpuras profundas e vivem sob discussão, em fusão ou ilusão. Das novas gerações às prateleiras, das siderúrgicas às fronteiras há os que remetem o nome ao início de tudo. Seja no espaço, no banquinho, no metrô, no convento ou até mesmo os que mudaram de profissão, eles sobrevivem. Carecas, poetas, profetas, provetas eles são seres que vivem, fazem ou simplesmente ouvem rock and roll.

INDIVIZO

 

Sou, sei que não diz nada do que

Sou, sei, indizível, porque às vezes

Sou ser indivizível, de fato

Sou, sei que não digo tudo que sei e se

Sou sempre o nada dito é porque

Sou ser que não diz nada, eu sei, mas

Sou, sei que digo o indizível, por isso

Sou, sei o que dizer quando digo que

Sou indivizível, mas eu sei que

Sou, apenas

Autopsicografia do alto do 23º andar

 

Quero saber qual parte de mim eu estava matando quando decidi dar um novo rumo a minha parte vital. Quero saber também quais partes de mim mataram a vida que se iniciou a partir daquela mudança. Quero saber quais partes de mim foram cúmplices quando se calaram ou acharam que era tarde para me abrir os olhos. Quero saber por que as minhas partes que testemunharam o crime contra a minha parte principal não fizeram nada para me ajudar. Quero saber por que fui o último a aceitar a morte de uma parte que fazia da minha melhor parte uma parte estranha dentro de mim mesmo. Quero saber a causas e os motivos que levaram a esta parte estranha de mim ser tão radical a ponto de matar a minha verdadeira parte. Quero saber por que a minha parte que ainda sobrevive não tem ânimo para superar a ausência das partes que, na verdade, nunca estiveram em qualquer parte.

 

Este blog está em recesso até que uma parte nova se inicie

De Sputnik a marginal, o ritmo anticonvencional da inovação da escrita

 

O beat da batalha dos versos com a verve das vidas versáteis

O beat da expressão das prosas com a prosódia das palavras proibidas

O beat da aplicação das rimas com o regresso das rasuras renitentes

O beat da trama dos verbos com a veia das versões verossímeis

 

O beat bate, bule e beija a banalidade das batinas libertárias

O beat brota, bane e bica a burrice das barreiras literárias

 

O beat é new

O beat é nik

O beat é new

O beat é nik

 

 

*Homenagem a Kerouac, o beatnik que fugiu da minha estante

 

 

Cobertura full time da extraordinária bandalheira televisionada

 

Os operadores da navalha preparam seus metais para mais um dia de batalha. Cortarão nossas carnes trêmulas com a rigidez de suas convicções. A noite promete ser a maestria sui generis das regências partidárias. Os holofotes estouram sobre a oficialidade dos atos à frente do palco. Reza-se um versículo qualquer, jura-se o inverso cruzando os dedos sobre os bolsos escondidos dos paletós, e a sessão começa. Os uivos das respeitabilidades dão o tom da prelazia. Palavras ao léu, apartes e moções ninam a platéia para o esculacho. Na pauta, as obras do PAC, sob o pacto do crescimento que demora a causar impacto, a luta das lágrimas ministeriais que nos seca e disseca no lamaçal das boas intenções e aquela conversa mole das hidrelétricas que apenas goles de água benta conseguem empurrar goela abaixo os miolos de pão que roçam as gargantas inflamadas do populacho. Ah, mas a ordem do dia é a navalha. O corte abrupto nas entranhas do óbvio, na certeza de que não será a última a morrer de CPI. Fazer o que. Somos nós as multidões, somos nós os filhos únicos das causas e descasos. Pois se não estamos nem aí para a música que sopra a poeira para debaixo dos tapetes, se gritamos “chega” apenas do quarto ou do banheiro aos engravatados da vez, a situação só se agravará. A greve continuará restrita aos campos e aos campus e a sessão continuará em clima de jam session...

Em coma, na cama

 

5:58. O despertador toca mais uma vez. Penso no dia que vem pela frente. Tento lembrar alguns sonhos absurdos, mas a imagem que vem à cabeça é a minha incansável repetição de gestos matinais. O despertador toca, estico os braços, continuo na cama por mais alguns minutos, reclamo em silêncio. Que merda ter que acordar tão cedo para mais uma segunda, mais uma semana inteira de trabalho! O pior é que não consigo tirar o fim de semana da mente – e do corpo. A ressaca me torturará até pelo menos quarta-feira. “Não há remédio nem solução para ressaca”, penso. 6:07. Ainda não levantei da cama. Olho fixamente para o teto e a minha vontade é desistir de acordar. Lembro dos trabalhos que terei que fazer, dos livros que pretendo ler, das mulheres que jamais conheci. Queria ser Proust, Verne, mas não passo de um reles frustrado pela obrigação de acordar cedo. Agora tenho menos de 15 minutos para pular da cama, tomar banho, me trocar e partir em direção ao ponto de ônibus. Mal reparo no belo dia que se inicia. Às vezes falo sozinho, “de que adianta um belo dia para quem tem que acordar cedo e ficar enfurnado num escritório?”. Cada segundo é uma eternidade quando tenho que levantar. 6:27. Saio de casa às pressas, sem café da manhã, sem pentear o cabelo e ninguém para despedir ou prometer voltar. Faria tudo para continuar dormindo. Mas não posso. Devo seguir a rotina sem questionamentos ou decepções, como alguém que se levanta de um sonho após anos tentando acordar...  

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