1959. O rinoceronte Cacareco recebe 100 mil votos do eleitorado paulistano, suficiente para ocupar umas das cadeiras da cidade, não fosse sua condição ociosa e desinteressada.
2004. A população de Santa Bárbara D’Oeste agracia o cidadão e morador de rua Otávio Rocha com 1675 votos. Um apelo à solidariedade e ao promíscuo discurso eleitoral. O silêncio do candidato consentiu em sua vitória.
Esses e outros tantos casos parecem insurgir inflamados contra a ordem estabelecida. Não que represente rupturas conceituais sobre as perspectivas do eleitorado. Mas aquele patrimônio intocável do qual se consubstanciava a imagem dos políticos sempre teve seus declives.
Este ano parece ser a lápide do político endeusado e populista. Vamos às urnas de orelhas em pé, como as do rinoceronte Cacareco. Por mais massiva que possa parecer as campanhas, nada tem tamanha objetividade quanto a cobertura da imprensa. Pleitear políticos é o êxtase dos jornalistas.
Mas, não podemos confiar tanto em nossas indagações. A memória é histórica mas não é pragmática. Então, por enquanto, seguindo as orientações do mestre Saramago, apenas “uivemos” para Brasília e seus canis eleitorais.
Para dar continuidade aos conceitos sobre as filas da vida, iniciarei com uma das mais contemporâneas e promissoras: a do amor. Segue:
A arte de filar o próximo
A “fila” no amor virou gíria pós-moderna. Basta entrar no orkut para ver mulheres insaciadas e homens tarados adeptos de comunidades como: “me respeite que a fila anda”; ou “seja rápido que atrás tem gente”. E o amor do papa Bento XVI foi por fila... ops, água abaixo. Não há mais tempo para celibatos e votos de fidelidade, pois nos dias de hoje, tanto homens como mulheres, põem a fila para andar. Ela tem celulite? Procure outra. Ele ronca a noite toda? Adeus benzinho. Sem a idéia de fila seríamos vintões e trintões com o corpo e mente de nossos avós. A fila libertou o casamento, permitiu o divórcio, espalhou casas de swingers pelas capitais e, ainda por cima, deu um novo sentido para nossas vidas. Depois da fila, ninguém ousa dar credibilidade a anjos e cupidos.
A filarmônica das filas filosóficas
Tempos Modernos. Quase cem anos após a filmagem do clássico de Charles Chaplin, no qual a modernidade mecanizava o trabalhador, tornando-o simulacro do sistema capitalista, a fórmula se repete. Como cordeiros, somos postos como máquinas, nos mais diversos setores da sociedade. É a pedagogia do enfileiramento da desordem institucional e, (por que não?) moral. Sim, hoje as filas controlam o caos e, nas mãos do poeta Nauro Machado, viraram uma sentença: “Um atrás do outro / atrás um do outro/ano após ano/ano após outros/minuto após minuto/século após séculos/ e de novo um atrás do outro/ atrás um do outro/ até a surdez final do pó”.
O rito da carne. O grito do corpo. O giro do couro. O mito da alma canibalizada que agrega valores de forma impensada. Três dias beirando a noite de folia com foliões incansáveis que oferecem a carne do corpo ao giro do couro. Não se pensa carnaval. Não se pensa durante o carnaval. Carnaval é aritmética, não filosofia. Carnaval é o instante momento da fuga da alma. Dois mais dois. Be a bá. Equação corporal que nos varre da lógica. Para embriagar-se do porre da vida regrada sem ter que pensar. Isto é fato. Não se intelectualiza. Não se preza sem prazer. Não se priva sem pavor. Pavor movido a axé, funk e outras “desorigens”. Mas nem o samba marchou desde a origem. O carnaval se apropria, muito embora impropriamente, de tudo a sua volta. O carnaval não é nosso nem dos outros. O carnaval não é sambódromo. Não é frevo. Não é tradição. O carnaval se autoproclama. O carnaval não deixa cinzas. O carnaval não existe.
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