Enquanto uns choram...

   Bill e os anti-heróis do asfalto

 

Comoção: s.f. 1. ação ou efeito de comover(-se). 2. Abalo físico. 3. Emoção. 4. Motim; revolta.

 

Medo: s.m. 1. Apreensão de espírito; receio; temor.

 

O vídeo exibido pelo Fantástico no último domingo te causou comoção ou medo? A vida cheia de antíteses daqueles garotos mal falados, mal cheirosos e mal tratados pulou as cercas elétricas e caiu de joelhos na sala de estar de damas comovidas e senhoras amedrontadas. O que fazer? Chamar a polícia não resolve, não chamar é perigoso. Então, vamos todos chorar, como fez Viviane Senna. Chorar por comoção ou por medo? Quem no país duvidava da existência de homens-vilões criados em plena infância? Oh, meus deus, como estou surpreso?

Em Socialismo para Milionários, o escritor inglês George Bernard Shaw critica a filantropia da elite em prol dos necessitados apontando um diagnóstico simples: a  ajuda dos ricos isenta o Estado de resolver os problemas sociais. Ao contrário do que pareça, a definição de Shaw é carregada de humanismo. Porque as socialites choram enquanto Brasília padece no medo?

A não ser que surjam uns Bills da vida que conhecem na palma da mão o peso de um papelote ou de uma AK 47, mesmo ter preferido, atirar com rimas e respeito sobre as telhas do subúrbio. Isso sim é assistência social. E que chorem as madames com seus pés em água fria.  Eis aí um mensageiro da verdade. 

 

E as filas continuam...

Mais conceitos verticais sobre filas horizontais...

Doação de órgãos: Relíquias e mentiras na fila de espera

 

Segundo cientistas da Nature e da Sciense esta fila está com os dias contados. As pesquisas com células - tronco prometem inserir no mercado, peles, ossos, corações e até fígados (o mais requisitado) antes de 2025. Até lá eles pedem muita paciência para pacientes e parentes. Com isso teremos tempo de sobra para ler pacientemente nos consultórios da vida e nas filas de consulta aquela Veja de 1996, aquela Caras com a Sônia Braga com rostinho de criança e, quem sabe, aquela carta do presidente que prometia reverter nossos impostos para o bom andamento da saúde. Isso muito antes da Veja e da Sônia Braga existir. Enquanto isso aguarde na fila, por favor...

 

Consulta médica: Cães de fila

 

Ao contrário da fila do amor, essa é a que menos anda. Supondo que uma simples dor de dente atinja em cheio um de nossos caninos. Primeiro passo: sala de espera, dentista, obturação, cheque, dívida. Segundo passo: sala de espera, a dor persiste, troca de dentista, troca de plano (se tiver), mais cheque, mais dívida. Terceiro passo: sala de espera, centro cirúrgico, o plano não cobre, a dor persiste, vende o carro, mais cheque, mais dívida. Isso, se tudo der certo e você não tenha que deixar o dente cair por ter que esperar tanto tempo antes do primeiro passo.

 

Cinema...

     A contramão do entretenimento

 

Assistir ao filme Syriana é quase um equívoco. Explico: trata-se de um filme em que o ato passivo de assistir não resolve. A cada cena o telespectador é obrigado a pensar, a por no eixo a trama documental e nada didática. Ao final tudo parece impetrar questões lógicas e complexas ao fundo, e o que sobra na peneira é a essência, a reação em cadeia gerada pela Indústria do Petróleo. 

Não é visualmente delirante nem de rupturas narrativas, e o vai e vem de locais e personagens podem dar a dimensão global da política intervencionista do país mais poderoso do mundo. Vale a pena, embora esse excesso de ativismo migrando para as salas de cinema seja uma anti-regra, um desvio de recurso, uma negação ao poderio da sétima arte de nos deixar boquiabertos ao voltar pra casa, não só pela essência e conteúdo. Para isso os livros ainda são o melhor remédio.   
E a taça do mundo não foi nossa...

                                          Apenas um álbum de figurinhas                           

 

1990. Uma pequena cidade do interior paulista. Uma família.Uma sala de TV. Três ou quatro gerações de glórias e decepções. Uma aglutinação de valores individuais e fracassos coletivos, e vice-versa. Uma parcela mínima do PIB, mas que naquele momento se apropriava de toda a riqueza do país.

Eu tinha meros sete anos, o suficiente para escapar dos gloriosos desastres de 82 e 86. Pouco sabia sobre futebol, pouco sabia sobre o Brasil, mas tinha a plena convicção de ser brasileiro. Longe de ser uma seleção memorável, logo percebi que minha maior preocupação era completar um extenso álbum com todos os times da Copa.

Após a primeira fase ainda restavam alguns jogadores de cada país. Meu escasso conhecimento de táticas ainda não me dava o direito de eleger-me “técnico” do time de Lazaroni. Por isso, entre uma partida e outra, eu, primos e amigos trocávamos figuras ao invés de palpites. 

No jogo das oitavas de final, sob um forte aspecto antidiplomático, conheci as figuras que me restavam. Um passe preciso, um corte seco e tudo ficou claro. O silêncio calou nosso estádio; o silêncio mudou nosso estado. Caniggia, o homem que jamais brilharia como naquele dia, apresentou-me aos ares latinos. A contragosto de parentes e amigos, já não queria ser Careca ou Müller. Para motivar-me a completar o álbum, passei a torcer até a última partida daquele mundial para os hermanos vizinhos. Afinal, àquela idade a copa para mim era apenas um álbum de figurinhas.

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