Um dia desses Seo Neno resolveu que ia arrumar o jardim da casa. Esqueceu as habituais caminhadas e trocou os cultos pela manhã por horas diárias cultivando sua flora particular. Regava flores, remexia a terra, plantava frutos. Não sairia do quintal antes de deixar aquele lugar exatamente como estava há muito tempo. Passou noites a fio assoviando para suas orquídeas, bromélias, roseiras, tudo como havia planejado. Antes de ir embora regou pela última vez cada vaso enrustido e sorriu. Jamais voltaria a ver aquelas plantas.
Comentário de Juca Kfouri:
"Pontes foi para o espaço encontrar com o seu país que estava lá"
Foram pouco mais de 300 Km do solo terrestre. Uma distância equivalente ao percurso que o paranaense faz para chegar à capital paulista. Mas esse trajeto não tem glamour. É na horizontal, não há ciência nem marketing, muito menos russos no caminho. É claro que foi uma comparação absurda e equivocada em termos práticos e econômicos, muito menos no campo filosófico. Afinal, “andar para cima” é quase um provérbio de otimismo e crescimento. O brasileiro Pontes, que apontou a bandeira brasileira no espaço, é considerado a ponte do crescimento cientifico do Brasil. Confesso que pesquisas de microgravidade continuam um enigma para mim. E não importa se ele está levando feijões no bolso para pesquisas espaciais. O que vale é a grandeza do espetáculo. Especulam de tudo: jogada política, ano eleitoral, acordo internacional, pleito na elite da ciência, etc. Nada disso, para muitos brasileiros, a ida ao espaço é um ato simbólico de representação coletiva. Afinal, quem de nós nunca atingir a órbita terrestre?
Jogo de caras marcadas
Está certo. Filósofos condenarão que não existe realidade absoluta. Psicólogos dirão que os participantes escondem sua subjetividade diante das câmeras. Sociólogos condenarão o tipo de relacionamento que se forma dentro da casa. E jornalistas dirão que o programa é simplesmente uma montagem. É provável que “análises de conteúdo” sejam sempre verdadeiras para a cadeia pensante do país.
Mas, após o encerramento da 6ª edição do BBB, outra coisa parece ter vindo à tona, e curiosamente pela “via democrática” do programa. As eliminações há muito deixaram de surpreender, aliás, talvez jamais tenham surpreendido a audiência e os intelectuais.
Do bobo-alegre-sentimentalóide Bambam, passando pelo libertário-intelectual Jean até chegar na humilde Mara, o que surpreendeu nos paredões? Talvez algumas circunstâncias tenham levado pessoas não tão populares a etapas mais avançadas do jogo, mas, a grande final, é de uma previsibilidade absurda. As votações sempre prezaram pelo “bom senso”, seja por idéias assistencialistas, seja pela identificação de tipos e arquétipos. Pode ser que a edição, o autocontrole, a falsidade ajudem a construir “os personagens” da casa. Porém, na hora de decidir, os argumentos vão muito além do que se espera, na tentativa inconsciente de tentar “premiar” a pessoa mais adequada a continuar no programa. Os atos falhos dos participantes contam, e muito, para a escolha da audiência. Mas na reta final, as identificações soam mais sinceras.
Bambam ganhou depois de chorar por uma boneca. Rodrigo por ser pacífico e interiorano. Dhomini por ser alegre. Cida por ser pobre. Jean por ser inteligente. Mara por ser humilde. Será que nenhum deles jogou como os demais? Será que a história de vida deles não pesou na escolha da audiência? Para certas coisas não é preciso ser filósofo, psicólogo, sociólogo ou jornalista para entender. O próximo BBB tem tudo para ser mais um jogo de caras marcadas.
Em homenagem aos navegantes da 25ª turma de jornalismo da Unimep...
Em homenagem aos aplicados atletas do Tíbia Futebol Clube...
Em homenagem aos peixões da nossa sala...
Em Homenagem aos rolês
Em homenagem a Timothy Leary que aplicou LSD em suas aulas práticas...
Navio de Cristal (Jim Morrison)
Antes de você cair na inconsciência
eu quero mais um beijo
outra oportunidade mágica de ser feliz
mais um beijo
mais um beijo
Os dias são luminosos e cheios de dor
me permita nascer na sua chuva gentil
o tempo em que você andava era tão insano.
nós nos encontraremos de novo
nós nos encontraremos de novo
Oh, diga-me onde sua liberdade mente.
as ruas são campos que nunca morrem
liberte-me das razões pelo qual
você prefere chorar.
eu prefiro voar.
O navio de cristal é cheio de vida
mil garotas. mil excitações.
um milhão de caminhos para gastar seu tempo.
quando nós voltarmos
eu escreverei uma carta.
Check-up
Era o seu primeiro dia de folga no novo trabalho. Longe da família e dos amigos, o anonimato naquela cidade não te instigava a sair de casa.Foi posto em demasia sobre os cômodos da casa, num excesso previsível de silêncio e solidão. Sem TV, sem cigarro, sem qualquer droga que te tirasse do fluxo do tempo, passou a se observar no espelho. Nada de novo, não fosse a vontade incontrolável de conversar com alguém. Desesperado, deu início a um diálogo, ou melhor, um monólogo revelador:
_ Oi, como vou?
_Vai bem, e eu?
_Você parece estar triste...
_Impressão sua. Estou, na verdade, feliz por você estar aqui.
_Eu também. Já não agüentava mais andar pra lá e pra cá à procura de mim.
_Mas o que faz aqui? Por que não sai dar uma volta?
_Não posso, estou preso aqui.
_Preso?
_É, preso.
_E o que dizer de mim sobre esta estante sem poder tragar ao menos uma vez o seu cigarro?
_Tudo bem, estamos presos. Cada um à sua maneira.
_Eu dava tudo pra sair daqui.
_Não ligo a mínima pra suas vontades. Eu é que estou sozinho. Você está comigo.
_Grande vantagem...
_Ah é? Então fique com suas vaidades que eu vou até o banheiro...
Segundo encontro:
_Com você aqui eu não consigo me despir.
_Tudo bem...
Colocou-se de costas para o espelho e entrou no chuveiro.Saiu às pressas sem olhar para trás. Quando ia dormir viu sem querer seu reflexo na porta do armário.
_Deixe-me dormir, por favor!
E pôs-se de lado num esforço tremendo para não se ver mais durante aquele dia...
PS: qualquer semelhança com você não é mera coincidência.
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