Sexta-feira Santa para profanar bobagens...

O breve cochilo da engrenagem humana

 

Para mim os feriados são sempre bem vindos. Não sou contra as “dobradinhas” nem que se abominem as datas festivas. Acredito que os mesmos que condenam o excesso de “civilidades oficiais” estarão à beira da praia neste feriado. Não que não mereçam, mas daí a condenar o reles trabalhador de gozar a institucionalidade das folgas em nome do bom funcionamento das entidades público-privadas é um exagero. Aliás, muitos trabalharão neste feriado. Para os que ficarão de chinelo e bermuda como eu, a vantagem é não morrer de tanto trabalhar, e não acabar como um dos 10 mil japoneses que morrem por ano em decorrência do trabalho. Neste país de desempregados, é mais fácil morrer à procura de emprego. Aqui, quem trabalha quer descansar e quem está ocioso quer imolar-se num ofício. Somos seres descontentes, mas felizes durante o feriado. Afinal, como nos alertam os pára-choques dos caminhões, quem inventou o trabalho não tinha o que fazer. Ou, melhor ainda, nas palavras do pugilista Maguila: “O trabalho danifica o homem”. Segunda-feira, enquanto os vigias da nação condenam o próximo (feriado), eu estarei em pleno aquecimento, para que a exaustão do corpo não impeça o árduo movimento de levantar o copo e o cigarro até a boca.   

Tradição interrompida...

                                                O tempo destrói tudo*

 

 

Peschad. Paskha. Pache. Esther. Páscoa. Renascimento. Transição. Passagem. Antes de Cristo, das prateleiras e do chocolate, o mundo já se curvava à esteira do tempo. Não há como se safar das rugas do outono. O tempo é inevitável. O tempo constrói, destrói. Mas acima de tudo, renova. A noção ocidental do tempo cronológico, configurada pelo deus grego Cronos, já apontava o espírito humano de variações cronológicas e históricas. Cronos representa a fome devoradora da vida, o desejo e a necessidade de uma evolução despropositada, sem mediações racionais. Com isso, o tempo hoje pode ser definido pela temporalidade. Somos escravos dos hábitos que nos constituem, sejam eles bons ou ruins. E a páscoa poderia ser tomada como um estado laico de renovação desse sentimento de temporalidade, de vida efêmera, transitória, mesmo para quem duvida de crendices e religiosidades. Mas como as tradições se apropriam às finalidades, o tempo virou dinheiro. E a páscoa virou coelho. E o coelho, de símbolo de renascimento e procriação, está virando novamente tempo. Sua agilidade é a síntese de nossa época. O coelho apressado, olhando insistentemente para o relógio, do livro Alice no país das Maravilhas, é a páscoa moderna, a nossa transição para o futuro. Sem renascimento transição ou passagem, no próximo domingo poderemos ao menos brindar aos tempos que não voltam mais.

 

*Frase do filme Irreversível, de Gaspar Noé

Descobrindo Dora

 

“Na poesia de Dora o poema é a reativação dos mitos: contém a força invocada, sopro do espírito”. Constança Marcondes César

 

Ontem, quase por acaso, assisti a uma entrevista com a poetisa Dora Ferreira da Silva, ganhadora do último Prêmio Jabuti de Poesia. Suas declarações serenas e críticas me pareciam cartas sutis à posteridade. Ao falar da vida, reconhecia a proximidade do fim. Ao falar da morte, enxergava um novo caminho. Não a conhecia. Não a conhecerei além dos versos. Durante a entrevista descobri um fato que me fez sentir uma espécie de orgulho envergonhado. Dora é conchense de nascimento, assim como eu. A vergonha é por não ter rabiscado esta homenagem com ela entre nós, numa cadeira de balanço cravado em seu berço, em sua terra natal. Apesar de tudo, ainda posso ouvir os seus murmúrios:


Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

 

Dora morreu dia 6 de abril de 2006, em São Paulo. Seu nome em grego quer dizer presente. Para ela isso será seu passaporte para a imortalidade.  Para mim, um presente além da vida.

Um fato crônico...

 Letargia ao sol e à chuva

 

Sentia-se sozinho. Após horas em silêncio, o tempo se tornou eterno. Desejava ter a transitoriedade ao seu lado para evitar os desvarios da existência. Cansava-se dos desencontros do mundo e sua inevitável conseqüência emocional. Não via outro meio de se comunicar com a vida a não ser pela escrita e pelos versos. Sofria. Chorava. Porém, o incêndio era interno, inflamando apenas as víceras. Não tinha o que fazer a não ser pensar em silêncio, dizer a si mesmo o que se sucedera naquele dia. Como num delírio narcótico passou a projetar aos olhos as lembranças do passado. Quando o telefone tocou, sua face desmoronou-se no instante. Os ruídos de fora se tornaram agudos e iminentes. O silêncio dissolvia-se no ar enquanto o telefone tocava insistentemente. Não queria atender. Não podia atender. Qualquer diálogo poderia revelar seu estado de espírito e, manter-se quieto, parecia ser o método mais apropriado de tolerar a solidão. Deixou tocar até que o mundo bateu à sua porta. 

Abre aspas:
"O peixe morre pela boca"...
Justiça e Sociedade...

O novo rebanho das almas lavadas

 

Há pairando nos ares um novo ceticismo social. Só que a descrença agora é  composta por imediatismos e sonhos de consumo, materialismos e crueldade. Os valores morais se dissiparam no vento. As lágrimas tornaram-se flocos de granizo.  Os choros são produzidos pela mídia e através da mídia. Quando a vida de uma filha que ordena a morte dos pais está diante das câmeras o que conta é o apelo emocional de quem ainda tem “a chance do direito”. Os advogados tornaram-se pais conselheiros. Oportunistas, é verdade. Mas, sob a tutela de seus diplomas, exercem racionalmente suas funções, sem se deixarem tocar por circunstâncias que não estejam prescritas na jurisdição. Exercem a lei e nada mais, pois a lei divina não vai ao tribunal como queriam alguns. A lei divina é falha, por isso esses PHDs em Direito falam em nome da sociedade. A Justiça tornou-se a bíblia mediadora da verdade e, seus preceitos religiosos, são a base das mazelas de nosso país. Não há Deus, então que venham os advogados.

Contudo, a mídia, que já foi Judas e Poncio Pilatos, às vezes torna-se a via sacra dos fatos consumados. Apesar de algumas emissoras quererem exercer o papel do Legislativo e seus apresentadores se julguem juízes, houve, na entrevista com a ré Suzane Von Richthofen exibida pelo Fantástico, uma redenção da mídia sensacionalista. A reportagem apresentou ao Brasil o caráter mais valoroso da cartilha jornalística: a denúncia. E mais. Sem as afirmações hipotéticas da imprensa política, as imagens tiveram o peso de uma resposta à sociedade e falaram por si só. As lágrimas tornaram-se um mar de ódio e incompreensão daqueles que ainda prezam pela instituição familiar. Quem acredita em direito à defesa a réus confessos que atire a primeira pedra. Quem acredita em ressocialização de mórbidos assassinos que atire a segunda pedra. E quem tiver pena da mocinha burguesa assassina que guarde suas pedras para ferir a si mesmo diante dos olhos atentos do público. Há casos em que nem a justiça Divina é capaz de resolver.   

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