Num pedaço de papel se esconde o infinito
Sempre tive o hábito de guardar coisas sem utilidade aparente. São pedaços de papel, panfletos, recortes de jornais, fotos entupindo pastas e gavetas. O feriado de Páscoa serviu-me, entre outras coisas, para revirar e reencontrar o passado escondido numa velha pasta. Lá se acumulavam diversos períodos de minha vida, que a memória sozinha já não era capaz de recordar. Fiquei horas lendo cada pedaço rabiscado. A maioria continha textos e poesias infantis sem coesão ou qualidade gramatical, mas já apontavam certos conceitos, idéias e pensamentos que floresciam em minha personalidade. Apesar das coisas típicas da infância e adolescência como a vontade de voar, fugir e ser livre, alguns textos continham algo mais. Não, não eram no conteúdo que as surpresas se revelavam. Eram nos cantos das folhas, nas linhas interrompidas, nos desenhos. Sempre relutei em jogar algumas dessas páginas viradas, mas tenho o hábito irredutível de por ao lixo muitas coisas que escrevo. Talvez, minha memória seletiva queria dizer algo. Talvez seja pura coincidência. Mas o que vale mesmo é o prazer de reler secretamente minha própria história.
OBS: tentarei encontrar algo “publicável” para este blog. Acho difícil mas vou tentar.
O submundo do olhar
Há anos ele usava aquele banco de praça como a meca de suas frustrações. Ilhava-se por horas a fio alimentando-se apenas do rastro deixado pelos transeuntes. Profissão amarga a dos sonhadores que não narram suas histórias. Ele apenas observava, quase numa fotossintese ininterrupta. Jamais era visto na esquina do acaso. Parecia germinar do trono que o acolhia em toda a sua angustiante vida pública.
Irrigado pela indiferença, ele desviava os olhares e, assim, a suspeita de sua imoralidade. Temia qualquer indulgência repelida pelos outros. Como um camaleão, surgia de sua trincheira como um sêmen inculto e imprevisível. Escolhia um ponto fixo qualquer a sua frente para refugiar-se nos pensamentos. Observava sem malícia o materialismo do mundo. Observava as coisas como num adultério imaginário. Observava, mas não era observado.
O que o tornou assim? Responder a esses abismos de incertezas seria menosprezar a profundidade dos fatos. Torná-lo singular era uma tarefa que limitava-se a descrição. Os seus traços físicos eram apenas meras pinceladas perto da pintura imensa que se alojava em sua memória. O seu retrato confundia-se ao espaço que ocupava e sua presença não despertava qualquer reação ou estímulo humano. Apenas o cigarro apagado no canto dos lábios dava margem à confirmação de alguns hábitos.
O mundo girava ao seu redor, mas ele parecia estar preso a algum outro plano, alguma outra vida, algum outro fato que não pertencia a mais ninguém. Seu olhar substanciava-se secretamente sobre as coisas. Parecia esnobar a vida alheia e não se frustrava por sua ausência. Apenas observava...
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