Sobre a pureza do anonimato...

Somos quase sempre todos iguais, mesmo buscando ser diferente

 

 

Tive um susto quando o seo Ananias me chamou pelo nome. Logo eu que mal havia gastado míseros trocados no seu botequim. E mais: ainda perguntou sobre a minha família e meu trabalho, numa demonstração que julguei ser de confiança e não de oportunismo comercial. Mesmo assim preferi desconversar e ir embora. Não poderia “usar” o pobre Ananias de pretexto para minhas muitas lamentações, afinal, ele nada tem haver com os meus problemas particulares e com a minha vida pessoal.

 

Fiquei pensando após esse “reconhecimento público” o valor da particularidade e a necessidade de se impor perante o mundaréu de anônimos. Usamos todos os mecanismos possíveis para nos diferenciarmos dos outros, seja qual for o recurso utilizado. E isso, na maioria das vezes, não acarreta em rituais de exibicionismo. São detalhes, minúcias de personalidade. Essa foi uma das preocupações do suíço Carl Gustav Jung quando tentou delimitar nossas instâncias psíquicas e seus arquétipos. Dessa análise deriva quase todos os nossos aspectos subjetivos como introversão, extroversão, intuição e aí por diante.

 

Talvez seja dessa projeção psíquica que surge o desejo mais paradoxal dos seres humanos. Ao querermos ser únicos nos tornamos escravos dos padrões de comportamento, sejam eles bons ou ruins. Nisso se encaixa o rebelde, o politicamente correto, o pacifista e o libertário. Como se cada um fosse “apenas um” e não pudesse ser outro. Para usar um exemplo prático vou olhar para minha própria experiência. Alguns me julgam extrovertido, outros dizem que sou quieto e a maioria diz que sou “sossegado”. Acho que todos estão certos, pois,inevitavelmente, meu lado mais visível é o meu ser “paz e amor”. Só os amigos mais próximos poderão desmentir essa sentença.

 

Escrevo isso após assistir a um episódio (ou será capítulo?) do programa Ídolos do SBT. Em busca de autenticidade os candidatos à celebridade caem nos mais diversos lugares-comuns. Há o cowboy, a cantora de axé e o rock star. Todos, em busca de si mesmos, são postos nos mais variados arquétipos comercializados pela mídia. Tudo em busca de notoriedade é claro. Mas sempre com uma pitada inconsciente de ser alguém em meio a tantos “alguéns”. A discussão sobre o sonho incontrolado em ser ídolo fica para a próxima, porque vou aproveitar o tempo em que ainda não sou famoso para tomar mais uma tranqüilamente no boteco mais próximo. E que o meu silêncio estampe para todos a minha alma inquieta.

 

 

 

 

 

Se não fosse verdade...

O dia em que o Zé não roubou a pinga

 

Levaram quase duas horas até o lendário alambique no meio da mata. O Zé ia na frente, com os garrafões em punho, e o Bento logo atrás, puxando o jegue pelo cabresto para não se avantajar perante o amigo. O animal, na verdade, era pra trazer quantidade suficiente da iguaria e não para evitar o esforço dos dois senhores. Nos momentos árduos Bento, surpreso com tamanha disposição do amigo, interrompia o silêncio: “Carma Zé! Pra que tanta pressa? A pinga não avoa não! E lá ia ele, acelerando os passos para chegar antes do amigo. Tinham combinado o seguinte: seriam 10 litros cada um, distribuído pelos quatro garrafões.

Ao avistarem aquela primitiva destilaria, Zé exclamou: “Vamo Bento, antes que o véio desista de vender a cana pra nois”. E lá foram os dois, com o jegue ao lado sem saber o motivo de sua viajem. Clap, Clap, Clap. O di casa, viemo compra pinga “. De dentro do velho casebre saiu um homem ainda mais velho que os dois amigos gritando sem meias palavras o alto preço da iguaria: ” Dois por um. É pegá ou largá “. Enfim”:

_ Quanto ocê tem aí Zé?

_Tenho 10 pau contado, e ocê?

_Também...

_Mas isso só dá pra dois garrafão.

_E se nóis vendê o jegue?

_Daí quem vai trazê a pinga?

_Ué, cada um trais dois garrafão e pronto...

_Ihh, é muito longe...

Nisso interrompeu o terceiro senhor:

_Vamo para de nhem, nhem, nhem e decidi logo!!!

O Zé chamou o Bento de canto e expôs seu plano:

_Oia Bento, enquanto ocê negoceia com o home eu vo co jegue lá trais extraí a belezura.

_Ta bom...

Nisso vai o Zé com o jegue e os garrafões no balcão que guardava a preciosidade, fingindo desistir do trato e indo embora. O senhor, sem desconfiar, diz:

_Seu amigo largou ocê sozinho e foi embora com o jegue. E aí vai levá ou não?

_Melhor não. Sem o jegue não dá pra levar.

Encerraram o diálogo e o Bento partiu à procura do amigo:

_Zé, cadê ocê?

Como não o encontrou resolveu ir embora. No caminho, encontra o amigo cochilando numa árvore, com os garrafões vazios ao lado. Nisso, numa mistura de espanto e incompreensão, Bento pergunta:

_Zé, cadê a bendita pinga?

O amigo, pra não prolongar a conversa, exclama:

_Bebi lá memo. O jegue não queria trazer de jeito nenhum...

 

    

Mais um fato crônico...

A falta de inspiração me fez espirar uma republicação. No blog é inédito, mas foi escrito há anos. Em suma, é uma história particular de causas universais. Leiam se tiverem paciência. Critiquem se florescer a impaciência.

O terno do fantoche

 

Chico acordava religiosamente às seis da manhã. Sem café e companhia, partia à procura de emprego sempre com o mesmo envelope pardo entre os braços, que outrora escondia seu desejo de ser chamado de doutor.

A vida fez de Chico um mosaico de ofícios, mas sem a patente da notoriedade. Era especialista em adaptação vocacional, um tipo de adestramento para humanos ao qual recorrem os menos aptos da multidão. Sem o poder de escolha ele se misturava em meio à insanidade das ruas e, entre um esbarrão e outro, passava como um fantasma à espera de alguém que o chamasse pelo nome. A frustração não era simplesmente o anonimato. Para ele o reconhecimento encurtaria momentaneamente a distância do passado promissor sobre o futuro dilacerado pelo pão de cada dia.

 

Chico estudou o suficiente para entender o valor do silêncio. Quando foi cobrador de ônibus de uma linha central, ignorava os inúmeros “bom dias” para se atentar ao valor exato do troco. Seu contato com o mundo se refletia apenas por aquele espelho convexo que tornava todos a sua altura. Via o corre-corre das massas num estado quase mecânico. Porém, diferente das ruas, ali sentado Chico temia o reconhecimento e, quando raramente ocorria, fingia ter um compromisso sólido com o letreiro ao seu lado: “converse somente o necessário”.

 

Antes de cobrador, Chico teve uma experiência como porteiro. Só aceitou o cargo porque era a quilômetros de sua residência e porque havia no anúncio uma expectativa de crescimento para síndico. Lá ele era o seu Francisco e demorou meses para acreditar em todos que se diziam moradores. Ignorava a informalidade para se mostrar um bom profissional, mesmo com a insistência de alguns em criar intimidade. Logo foi demitido por impedir a entrada de uma dama da alta sociedade. Até para ir embora o velho Chico se mostrou contundente com a responsabilidade. Esperou o seu substituto chegar para se gabar da experiência e arriscar uma pontinha como professor.

 

Quando foi animador de um posto de gasolina, vestido numa calorosa fantasia de urso, Chico perdeu o medo de se expressar. Camuflado pela roupa, ele distribuía beijos para todos dando a impressão de que o sorriso do urso era o reflexo de sua alegria. Ao ir embora o abatimento e o cansaço ficavam visíveis sem a máscara, mas o consolo era poder no dia seguinte ser o urso sorridente novamente.

 

Numa de suas corridas por emprego, ele foi pego de surpresa por um convite de um amigo: trabalhar como auxiliar num escritório de advocacia. A euforia foi tamanha que, apesar das poucas finanças, Chico arranjou um convincente argumento para comprar um belo terno. Misturava-se aos homens da lei como antes se misturara ao povo. Ia de agenda e celular e ressuscitou o velho hábito de fumar após as refeições. Após um longo período exercendo metodicamente algumas atividades, Chico ganhou a chance de comandar um departamento. Confuso e atordoado, ele viu seu sonho escapar entre os dedos. Recusou a oportunidade, pediu demissão e deixou um bilhete: “quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré”.

 

Quase um poema...

 Cidade das Estrelas

 

 

Sou o pai do mundo órfão

Neto do câncer eterno

Que meu filho fez nascer

Sou a árvore oculta

Que brotou do ventre livre

Que espera pra nascer

Sou a vida desregrada

Que morreu sem dizer nada

Eu sou filho de ninguém

 

Nasço da verdade desmentida

Que transou com esta vida

Para matar a razão

Sou a liberdade extrema

Sou o palco sou a cena

Do porre louco da ilusão

Sou o feto iluminado

Sou presente sou passado

Sou o sim dizendo não

 

Tenho a chave da história

Tenho o sangue, tenho a glória

Tenho em mim a sua mão

Sou o um, sou o diverso

Sou o grão, sou o universo

Basta fazer a opção

Sou o deus esfarrapado

Sou o ofício renegado

Viver é a minha profissão

 

 

*Cidade das estrelas seria a tão sonhada Sociedade Alternativa de Raul Seixas onde o “advogado era o não-advogado, o médico era o não-médico e o policial era o não-policial”. Raul prega uma inversão de valores e o livre arbítrio entre escolher um caminho ou outro. Os atos seriam despidos de imposições ideológicas e o individualismo seria o reflexo da coletividade. O poema tenta expor a responsabilidade de viver cada um a sua maneira, sempre disposto a alterar os planos pré-determinados. Escrevi estes versos no primeiro ano de faculdade, no auge de minha liberdade extrema. Bons tempos...

Um fato crônico...

As vidas de Dona Barbosa 

            

Dona Barbosa dividia os três cômodos da casa com sete cães obesos. Tratava-os como filhos, incapazes de ferir a índole materna de sua dona. A quase senhora preparou um a um para as atrocidades da vida utilizando os melhores métodos pedagógicos, da infância à velhice. Todos estampavam no olhar uma obediência exemplar diante do assobio trêmulo e falho da mulher que ecoava nos corredores da casa.

Quando Barbosa era flagrada conversando com um dos cães enquanto fazia compra no mercado, os murmúrios dos outros revelavam doses de incompreensão: “essa mulher tá precisando ter filho”, ou “que falta um homem faz”. Era assustador notar sua convicção e indiferença diante da opinião alheia.

Quem passava em frente ao seu casebre pela manhã, flagrava uma mulher de avental alimentando pombas com os dejetos da dieta humana. Elas ficavam à espera de tudo que saísse das mãos da senhora e, aos poucos, se acumulavam aos seus pés e percorriam seu corpo até tornarem-se um único membro. Esse costume tornou os fios elétricos da rua numa gaiola a céu aberto, numa prisão voluntária daquelas aves.

Ninguém sabia ao certo como Barbosa sobrevivia sem trabalho. Alguns especulavam sobre uma pensão conjugal, herança familiar e inúmeras outras fábulas que o imaginário popular foi capaz de lançar ao vento. Não saía de casa para fins suspeitos, não recebia visitas, não falava de homens, tampouco de sexo. A televisão e o rádio eram naturalmente sintonizados em canais evangélicos, o que levantava a suspeita de um possível voto de castidade. Contudo, a única certeza era seu amor indissolúvel pelos animais. Não só cães e pombas, como dois gatos, uma lebre, canários e até um excêntrico tucano que ela escondia nos fundos por medo de alguma represália ambiental. Qualquer baixa em seu zôo suburbano significava noites a fio de portas trancadas sem contato com o mundo. Quando saía, voltava com um novo exemplar adotado entre os braços, certamente encontrado na esquina mais próxima.

Apesar de parecer um monólogo interminável, o doce lar de Barbosa não era vítima da desarmonia. No lugar de profecias sobre o futuro, surgiam grunhidos, cantos, latidos de todos os lados. O ritual selvagem ganhava doses de sarcasmo ao atrelar-se aos ruídos da TV. A curiosidade alheia ficava aos prantos com a trincheira social da vizinha e as crianças do bairro a comparavam com personagens bizarros de desenhos. Seu isolamento era um playground de difamação e suposições.        

Dona Barbosa vivia à deriva dos homens e da sociedade à sua volta. Como cidadã, o direito de ir e vir se limitava a um estrito roteiro permanente. Não havia feriado que a levass e ao parque ou ao cinema. Apesar da janela só se abrir de fora para dentro, aqueles poucos metros quadrados eram suficientes para fixá-la ao solo da vida sem os homens. Preferiu impor aos animais a condição de sua coletividade.

 

 

 

 

 

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