Quem matará o mal estar da civilização?

Freud, Prozac e outras promessas

 

Se estivesse vivo, Freud faria 150 anos no último dia seis. Se suas idéias estivessem realmente mortas, jamais alguém se lembraria do austríaco que questionou a vaidade das mulheres, as relações afetivas parentais e redefiniu nosso inconsciente. Se estivesse vivo, suas teorias seriam tachadas de ”maluquices” e sua cabeça seria posta a prêmio em diversos pontos do planeta. Por ser judeu, ele já foi pretexto para tirar Israel do mapa por ter “destruído a moral” da civilização. Se não estivesse morto, poderia redesenhar o panorama da psicanálise com novas idéias, práticas ou descartáveis. No entanto, sua contribuição para o pensamento humano pode ser considerada mais filosófica do que científica para leigos como eu. Vivo ou morto, ele ainda é referência no que diz respeito aos nossos desejos, sentimentos, teorias e idéias. Freud não explica. Freud complica. Por mais questionável que seja seus métodos ele jamais morrerá.

 

Muito depois do divã e da livre associação nascia o grande vilão dos psicanalistas ortodoxos. Há 24 anos o Prozac invadia os consultórios para dar uma nova luz nos casos perdidos da mente humana. A “pílula da felicidade” tenta desde então enterrar a psicanálise. Ele e seus derivados antidepressivos são recomendados que nem água no verão. Tudo bem, muito antes do Prozac já havia os ópios e cocaínas da vida, esta última recomendada, inclusive, por Freud. Mas substituir drasticamente os tratamentos psicológicos a um comprimido é, literalmente, suicídio. Em seu livro Prozac, Panacéia ou Pandora, a psicóloga Ann Blake Tracy descreve vários casos trágicos relacionados ao medicamento. Há também o filme Geração Prozac, que mostra o relacionamento de uma jovem com a droga. O título do filme, aliás, tornou-se a alcunha da vida contemporânea. Em sites de busca há uma infinidade de referências ao termo Prozac que fogem de sua breve descrição médica. O antidepressivo mais popular do mundo ganhou o status freudiano de contestação e dúvida. Se Freud não serve que venha o Prozac.

 

A discussão é embasada pela simples questão: é possível evitar os sofrimentos que nos assolam desde que nos tornamos seres racionais? Se a psicanálise é tida apenas como uma “possibilidade espiritual” desvinculada da neurociência, que tipo de tratamento através dessas drogas pesadíssimas pode ser considerado correto?Nunca precisei sentar num divã e espero nunca ter que recorrer ao Prozac para me livrar de algum mal estar incontrolável. Minha única dor de cabeça é saber por que tanta gente desconfia de Freud e passa acreditar num remédio. Alguém tem um Prozac aí?   

 

 

Num certo lugar...

A morte do Improviso

 

 No mais etílico dos becos nasceu o Improviso, um típico reduto de boêmios e histórias mal contadas. Era uma construção nua, que o tempo se propôs a decorar com os atributos de sua fiel clientela. Não o requinte da boa cozinha nem a conveniência da higiene e o atendimento nunca dependeu de cardápio. O mote para o sucesso era trocar as especialidades pela fértil imaginação da freguesia.   

 

O seo Ferreira, por exemplo, adorava que espremesse uma laranja na cachaça. E o garçom, calejado pelo hábito, trazia à mesa sem meias palavras e com a precisão da dose anterior. Além da bebida, o seo Ferreira ia ao Improviso para tentar reencontrar uma linda moça, que hoje já devia beirar a meia-idade. Ele se sentava no canto da porta como de costume e o primeiro que encostasse se tornava vítima de sua memória persistente. Nem mesmo a desconfiança de todos abalava a esperança do Ferreira em rever aquele rosto inalterado pelos anos.

 

Também era comum encontrar no Improviso o tal do Mato - Grosso. O apelido é aquele exemplo típico de protocolo que distingue as semelhanças dos homens, ainda mais num local onde imperava a diversidade. O “estrangeiro” , como o chamavam alguns, ia lá ressabiado com o falso álibi da esposa. Olhava por todos os lados antes do primeiro gole, e logo se despedia com o polegar, sem dizer uma palavra sequer. Porém, a cada nova dose, sua mulher era obrigada a engolir calada o sabor da indiferença do marido.  

 

Por um tempo houve no Improviso uma roda de samba aos domingos. Talvez tenha sido o único período em que as donas de casa ganharam condição de freguesas. Iam com os ânimos aguçados, mas sem qualquer audácia que tirasse o sossego dos homens. Ficavam entre elas, paparicando assuntos da mais alta complexidade feminina, pois eram observadoras assíduas. Nem as disputas conjugais dos quarteirões mais distantes escapavam da visão ácida daquelas mulheres. Porém, a batucada rolou solta até quando o Matias resolveu flertar a mulher do vizinho. No Improviso ninguém tolerava briga e, depois desse episódio, o bar voltou a não tolerar mulheres.

 

Nem só de ilustres vivia o cultuado boteco. Atraídos pela velha placa de preço na calçada, os andarilhos costumavam arriscar uma dose de pingado ou coisa parecida. Eram bem vindos por todos, mas não dispunham de privilégio imediato. Sentar-se na velha mesa do seo Ambrósio, por exemplo, requeria alto grau de aproximação. Até mesmo os que já o conheciam, pediam com cautela uma das quatro cadeiras de sua mesa. Segundo alguns, seo Ambrósio se tornara irredutível depois que conheceu dona Maria, uma professora aposentada que conservava vivo os velhos tempos da palmatória.

 

Histórias como a do seo Ferreira e do Mato-Grosso permaneceram inertes por uma trama em que só vida poderia narrar. Quando o bar fechou as portas, parte dessas pessoas também deixou de existir. Os que permaneceram vivos, lutaram até o fim por outro hábito que não lembrasse a falência de uma vida monótona. E entre o lado físico da bebida e o prazer da convivência, havia em cada um deles a sombra da rotina, que o bar se encarregava de iluminar com seus acasos.

 

 

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