Sobre o fim das palmas no portão de casa...

A  autodependência de nossas vidas celulares  

 

Descobri que era dependente depois que larguei o meu no balcão do bar do Gaúcho (acho que foi lá que eu perdi). Não resisti sua ausência nem menos por uma semana. Fiquei incomunicável, intransponível e irremediável. Minhas atividades sofreram uma queda brusca de produtividade. Não tive escolha:  comprei um, não exatamente novo, para comprovar minha total dependência. Não sou o único. Em Brasília já há um para cada habitante e no país todo são cerca de 90 milhões de aparelhos em circulação por aí.

 

Mesmo que para alguns ele represente perigo maior que armas de fogo - como opinou o delegado do Deic de São Paulo - e até corram o risco de explodir, não há representação mais fiel da comunicação moderna do que os aparelhos celulares. A indústria tecnológica parece encontrar neles o refúgio apropriado do experimentalismo e inovação. A medida em que se tornam mais compactos, suas funções aumentam, ganhando o papel que já pertenceu aos tradicionais canivetes suíços. Das penitenciarias ao salão de negócios da Bovespa, tudo gira em torno da telefonia celular.

 

E não há do que reclamar. Com exceção dos super aparelhos com tela de cristal líquido, câmera fotográfica, MP3 e outras frescuras, é possível encontrar alguns a preço de banana. O meu segundo e atual aparelho, por exemplo, foi comprado por 50 reais. Não é lá um dos modelos mais atraentes, mas quebra um galho. E que galho. Devo a ele grande parte de minhas aventuras e acasos. Sem ele, aliás, minha rotina nunca seria posta em xeque.

 

Contudo, como se trata de algo que beira a dependência é preciso muito cuidado. Ao mesmo tempo em que o vejo como algo benemérito, daqueles que não se pode questionar seu serviço prestado, é preciso muita cautela ao atribuir funções a um aparato técnico. Não raro, somos postos no sentido inverso da prelazia tecnológica, ou seja, ao invés de a máquina suprir nossas ausências físicas e intelectuais, acontece justamente o contrário. É a nossa capacidade humana que se torna dependente da tecnologia. Para ilustrar é só lembrar das milhares de coisas que você (e eu) deixamos de fazer pela ausência do celular. Não fomos ao cinema porque fulano não ligou. Nos ausentamos do churrasco da empresa porque cicrano esqueceu de ligar. E assim por diante.

 

Tudo bem. A culpa não é exclusiva do celular. Há inserido nos avanços de nossa época um certo ar de glamour, de autodependência, de auto-inclusão. Não há como não acompanhar a barca da humanidade. O problema é que se daqui algum tempo a barca afundar, correremos o sério risco de não saber mais nadar sem o auxílio da tecnologia.       

 

 

A incalculável arte de beber...

Quanto vale ou é por litro?

 

Hoje acordei de ressaca. Nem sei mais o número de vezes que este mal-estar físico-emocional me afligiu durante a vida. Depois dessa considerável experiência Tirei a seguinte conclusão: a ressaca é um porre incalculável. Falando nisso, uma das dúvidas que mais me persegue durante a vida é a de quanto já bebi, seja em boteco, em casa, em posto de gasolina, em restaurante, na casa de amigo, etc. Com exceção do trabalho, não há situação em que alguma bebida profana não esteja presente. Ou você já se imaginou num bar bebendo água e comendo alface? 

Quanto ao cálculo, seria mais fácil ter começado a rabiscar alguma estatística quando tomei meus primeiros porres ainda com 13 anos. A esta altura não há método capaz de decifrar a quantidade digerida de álcool – nas diferentes formas de consumo, principalmente cerveja – por um apreciador de bebida como eu, mesmo não sendo o que mais bebe entre meus amigos. Já tentei calcular a partir da média de dias embriagados por ano, mas desisti porque jamais estabilizei o consumo, que segue uma escala crescente com o tempo. O mais perto que cheguei foi fazendo as contas pelos gastos com bebida desde que comecei a trabalhar e, conseqüentemente, a beber cada vez mais. Cheguei a conclusão de que quase 40% de minhas finanças (sempre equivalente ao valor do meu salário) foi, e ainda é, destinada ao que chamo de departamento de causas etílicas. Desisti porque, seguindo a lógica do consumo crescente, quanto mais ganho, mais bebo. Nessa matemática inexata o que vale mesmo é o simples ato de multiplicar os números, digo os copos virados.

Glamourização do crime...

As balas invisíveis da imprensa nacional

 

“Mas enquanto o mundo explode, nós dormimos no silêncio do bairro, fechando os olhos e mordendo os lábios. Sinto vontade de fazer muita coisa”. Fiz desses versos de Chico Science o meu ímpeto noturno do pós-guerra de São Paulo. O mundo realmente parecia explodir, mas nossa fuga apavorada das vias públicas foi muito além dos ataques do PCC. Sentíamos medo mais do assassino invisível, sugerido pelo corre-corre de viaturas, do que das facções espalhadas pelo Estado. Corríamos, gritávamos, propagávamos notícias de que o mundo de fato explodira. Pais, mães, amigos, vizinhos se solidarizavam com telefonemas e preocupações. De Socorro à Piedade, o Estado foi entregue ao crime organizado.

 

Aquela visão superficial de que tínhamos do Iraque pousou sobre o imaginário de todos. A guerra particular da polícia com o PCC foi transmitida ao vive em rede nacional. Ainda ontem, a idéia de se reintegrar ao espaço público parecia inviável, ainda mais com a bruxaria aplicada pelos órgãos de imprensa. Cada dose de pânico investida contra a massa gerava uma onda incontrolável de boatos e especulações. 

 

A verdadeira “Guerra dos Mundos”, a ficção escrita por H.G. Hells, parece ter sido reinventada pela mídia nacional. O livro foi usado por Orson Welles num programa de rádio na transmissão para Dia das Bruxas do ano de 1938. A radiodifusão literalmente assustou muitos americanos, levando alguns até mesmo ao suicídio. A transmissão feita por Orson Welles ocupou várias manchetes do mundo, assim como a do Dia das Mães de 2006 no Brasil. A diferença é que aqui não são alienígenas armados que amedrontam a população.

A culpa é nossa!!!

10 hipóteses para o massacre em São Paulo:

 

1. A culpa é da União pela defasagem do sistema de segurança pública e pela falta de políticas sociais em longo prazo;

 

2. A culpa é do Código Penal inaplicável às circunstâncias históricas e políticas do país;

 

3. A culpa é da educação precária existente no Brasil, o que faz com que a falta de perspectiva leve os jovens ao mundo do crime;  

 

4. A culpa é do estado de São Paulo pela interrupção de programas carcerários e pela ausência de investimento no setor;

 

5. A culpa é da corporação policial pelo despreparo e pela suscetibilidade em negociar com as organizações criminosas;

 

6. A culpa é da má índole de alguns policiais que corrompem a imagem de toda a corporação;

 

7. A culpa é das organizações criminosas que mandam e desmandam no crime, com ou sem o viés da sociedade;

 

8. A culpa é da má índole de alguns criminosos sem escrúpulos e aptos a executar cidadãos friamente;

 

9. A culpa é da sociedade por acreditar na União, no estado, na educação, na corporação, nos policiais, nas organizações criminosas e nos bandidos.  

 

10. A culpa definitivamente é nossa! 

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