Se a taça do mundo for nossa...

Os poucos minutos de nosso patriotismo

 

2006. Mais uma vez nossa submissão às representações positivas da nação (será uma nação?) será difundida por todos os lados com o viés de nossa história oficial e, sobretudo, por quem se encarregar de escrevê-la. Do mito fundador das embarcações gloriosas que se aportaram nos trópicos às comemorações de nossos supostos 500 anos, sempre houve algum tipo de clemência que tentasse  justificar nossa peculiaridade seja pelo povo, pelo clima, ou pela imensidão de nosso território. É claro que isso interfere numa auto-reflexão sobre o que realmente nos apura a fidelidade dos fatos. E é claro também que utilizar fatores históricos para desenhar um panorama atual é o primeiro recurso para compreensão da realidade.

 

O fato é que, longe das mitificações populares cravadas nos livros didáticos de nossas escolas, não é preciso ser antropólogo, sociólogo ou qualquer coisa para saber que há momentos em que o nosso juízo crítico é posto em xeque. Não falo das festividades do 7 de Setembro nem do manejo triunfal do Hino Nacional na data da Proclamação. Essas situações, aliás, são mais mecânicas do que sentimentais. Soam mais como compromisso do que patriotismo.

 

Dentro dessas representações a mais paradoxal é, sem dúvida, o "futebol brasileiro" (entre aspas porque para nós brasileiros essas duas palavras criam uma particularidade incomparável). Nosso  histórico nos gramados talvez tenha sido um dos únicos requisitos de “brasilidade” que não foi moldado tendenciosamente. Os mártires da nação são coadjuvantes diante de nossos atletas. As glórias nacionais nada são diante dos títulos mundiais. O heroísmo (?) de Tiradentes e dos Bandeirantes pode até ser contestado aqui ou ali, mas não ouse por em dúvida o talento de um dos nossos inúmeros “reis” jogadores. Mesmo que muitos saiam por aí dizendo que o brasileiro esquece das falcatruas de seus políticos e da miséria do seu povo em ano de copa do mundo, isso me parece mais uma obviedade "continental" (para utilizar um dos atributos comuns quando nos referimos positivamente à vasta extensão do país) do que um sintoma de inferioridade e, até mesmo, burrice.

 

Dizer que o país pára também é uma besteira sem tamanho. Se o Brasil chegar à final serão apenas sete jogos dentro de um único mês. E cada jogo tem apenas 90 minutos. Portanto, serão pouco mais de 630 minutos longe da corrupção, da pobreza, da miséria, do desemprego etc. Muito pouco para um povo “que não desiste nunca...” 

 

    

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