Tenho me preocupado em falar sobre os mais diversos assuntos sem me referir necessariamente a “alguém”. Em todos os diálogos me preservo para não cair inevitavelmente na fofoca. No trabalho, por exemplo, os problemas são expostos de maneira em que o nome das pessoas não entre na conversa. Como se não houvesse um “culpado” direto paras as coisas acontecerem. Mas numa relação de causa e conseqüência há sempre uma pessoa que deve responder pelas coisas que acontecem.
Ao falarmos das coisas, conseqüentemente falamos das pessoas. Na prática é o que os críticos de arte tentar fazer ao se referirem à “obra” e não ao “autor” dela. Mas assim como as obras e os autores, as pessoas e as coisas muito mais do que apenas se confundirem, se fundem numa única trajetória. Por mais lúdica que possa ser a obra, ela sempre carregará em si elementos que configuram algum vestígio da projeção externa dos desejos e perturbações do autor.
Com as pessoas, e não necessariamente os “artistas”, essa regra não é diferente. No trabalho falamos do salário, das condições humanas oferecidas, das vantagens e desvantagens. Como se tudo isso não fosse o processo invisível da ação dos homens que nos circundam. No amargo do café na padaria, no centavo convertido no pãozinho, na ausência ou na presença, na saúde ou na doença, sempre há a influência de alguém em especial. De alguém que deve ser a causa ou a conseqüência do que está ocorrendo ou do que foi feito.
A definição de uma figura de linguagem é extremamente apropriada para sintetizar essa idéia: “Decifrar a metonímia consiste em chegar ao termo substituído, ou seja, ao referente que atende à dupla condição de ocupar a posição do substituto e manter com este uma relação de contigüidade”. A metonímia é o resultado da substituição de uma palavra por outra de vínculo aparente. Portanto, quando dizemos algo sobre “as coisas” estamos falando também das pessoas, e vice-versa. Um exemplo clássico de metonímia se forma justamente quando nos referimos aos autores/obras, como quando dizemos que “lemos Drummond” e não a “obra” de Drummond. Ou melhor: quando dizemos que “o nazismo matou milhões”, nas entrelinhas aprece quem?, Adolf Hitler e seus soldadinhos de chumbo. No cotidiano a metonímia aparece quando “vamos ao barbeiro”, e não ao seu salão, quando “bebemos um copo de vinho”, e não “o vinho do copo”, e por aí vai.
Está na gramática, está na vida. Não há como escapar. Querendo ou não, sempre falaremos das pessoas, mesmo que indiretamente. Nossos diálogos são uma forma de dizer que coisas e pessoas estão ligadas intrinsecamente entre si. Somos coisas hoje, amanhã as coisas serão nós. Até as catástrofes naturais já têm um vínculo direto com a ação do homem. Até coisas que não nasceram coisas estão se humanizando. Então, se estiver na dúvida entre culpar uma pessoa ou outra, o melhor a fazer é deixar que as “coisas” falem por si mesmas.
A máxima da eventualidade cunhada pelo curitibano Paulo Leminski parece mesmo nortear minha vida. Levo o título deste post como um lema antipragmatismo, como uma válvula de escape diante da rotina. No entanto, inevitavelmente, e muitas vezes por fatores práticos e não emocionais, somos postos como estátuas no sofá de casa, diante da TV, na cadeira do trabalho, ou seja, nos mesmos lugares e nas mesmas ocasiões de sempre, sem nunca se preocupar em mudar a trajetória. Às vezes, quando almejamos mudar a direção, já não há mais como voltar atrás. Qualquer decisão tomada pode ser decisiva para o rumo que tomará nossa história.
Fui tomado a pensar sobre isso pelo fato de ter decidido sair de casa num dia em que certamente me jogaria em frente à TV para esperar a hora de ir para a cama. Aliás, é justamente dentro de nossas casas que a rotina parece imperar triunfante. Quanto menos saímos dela, mais entregues à rotina nos tornamos. Para analisar a incrível coincidência que contarei adiante fui buscar novamente em Carl Gustav Jung algumas explicações técnicas a respeito desses fatos que parecem impossíveis de acontecer meramente por acaso. E foi em sua idéia de sincronicidade que encontrei a resposta aparentemente “mais técnica” para o ocorrido. Num ensaio homônimo publicado há mais de 50 anos, Jung cunhou o termo para designar uma ligação entre a mente e o mundo que permite que situações eventuais possam ser respondidas psicanaliticamente. Para tanto, Jung usou exemplos práticos que poderiam responder, por exemplo, o simples fato de alguém pensar numa borboleta e repentinamente uma entrar pela janela. Não vou arriscar me aprofundar nesses conceitos, inclusive por serem ainda muito questionados. Uso isso somente para “ilustrar tecnicamente as coincidências”.
Bem, vamos ao fato. Na última quinta, quando voltava pra casa resolvi tomar apenas uma cerveja no bar antes de entrar. Em questão de meio segundo, fui ao bar e não pra casa como de costume. Nada demais, não fosse o fato de reencontrar um amigo após quatro anos sem vê-lo. Já fui inúmeras vezes àquele bar, mas naquele dia não tinha pensado em sair de casa. Fui para tomar uma e só. Foi uma “coincidência” tanto para mim quanto para ele. Afinal, tanto eu quanto ele morávamos em cidades diferentes durante esses quatro anos. Ele em Londrina, eu em Piracicaba. E foi justamente em Piracicaba, no ano de 2002, que a gente se tornou amigo. Tudo bem, só o fato de hoje morarmos na mesma cidade já amplia a proporção disto acontecer, mesmo sendo uma cidade de quase 600 mil habitantes. Não quero acreditar que foi algo extraordinário que permitiu esse reencontro e, pra ser sincero, isso é o que menos importa. Só tenho uma certeza em relação aos acasos: assim como eles servem para nos distanciar, se tivermos um pouco de sorte eles hão de nos reaproximar. Mas nem pense em viver sem eles.
PS: Marcel, passa lá em casa pra gente tomar umas no bar do Ananias!!!
Benedito Erudito e Josimar Popular
Benedito gosta de samba pela forma irregular dos versos. Josimar samba todos os dias. Benedito é fanático por futebol por ser uma arte de valores democráticos. Josimar é reserva do time do bairro. Benedito usa todos os narcóticos para buscar a liberdade. Josimar largou o álcool várias vezes. Benedito aprendeu a ser ateu desde criança, pois acreditava incondicionalmente na Teoria da Evolução. Josimar vai à igreja com a família aos domingos. Benedito desce à sua casa da praia todo feriado. Josimar come peixe na Sexta-Feira Santa. Benedito toma antidepressivos para evitar ansiedades. Josimar ganhou a úlcera na fila de espera. Benedito conheceu Josimar no último carnaval. Benedito e Josimar eram filhos de Josés, casados com Marias e netos das origens brasileiras. Seus filhos torciam pelo mesmo time e falavam português, mas não na mesma língua.
Na final do campeonato juvenil do ano passado o filho de Benedito ficou encarregado de marcar o pivete de Josimar. De um lado, a tecnologia das chuteiras. De outro, a ciência das pernas. De um lado, os mandamentos da boa conduta. De outro, o jeito atrevido de lidar com as coisas. De um lado, a arte primorosa e acadêmica. De outro, a arte do improviso e da superação. Atrás das quatro linhas os dois pais gritavam e esperneavam sugerindo táticas, atalhos, mandando chutar, mandando carregar a bola, mandando cavar falta. Já os dois moleques dentro de campo, em busca de um jogo limpo como mandava o figurino, se aproximavam, se erguiam, se descupavam.
O jogo terminou empatado no tempo regulamentar levando a decisão para os pênaltis. Contrariando a vontade dos pais, os dois pequenos atletas se recusaram a bater as penalidades e foram mais cedo para o vestiário. Benedito e Josimar lhe distribuíam broncas enquanto os dois trocavam figurinhas. O filho de Benedito convidou o filho de Josimar para jogar videogame. O filho de Josimar convidou o filho de Benedito a andar de rolimã. Benedito, com sua fama de erudito, e Josimar, com sua índole popular, jamais voltaram a se ver. Atendendo uma ordem dos pais, os dois filhos também não quiseram aprofundar a amizade. Mas aquela partida ficou na história. Assim como o videogame e o rolimã.
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