1460 DIAS DEPOIS...
O seu Dario irá fechar a barbearia um pouco mais cedo pra poder ir até o bar do Alemão com os amigos.
Tio Josias aproveitará o dia de folga pra levar os sobrinhos ao zoológico antes da partida.
Dona Irene, que não entende nada de futebol, vai acompanhar o marido no evento da empresa.
A olaria dos Parise vai distribuir pipoca e coca-cola para os funcionários, mas já avisou que vai atrasar o salário deste mês.
O Prof. Alonso pediu a seus alunos um trabalho sobre os países da copa que poderá ser entregue depois da partida.
A vó Maria fará bolinhos de chuva mesmo que o tempo não esteja nublado.
Dr. Alex antecipou a folga atrasada para se acertar com a família.
Zelão, que não tinha televisão, comprou uma à prestação nas Casas Bahia. O medo agora é que ela não chegue a tempo da partida.
A turma do Ezequiel combinou um churrasco pra comemorar a vantagem de estar desempregado no dia.
O Motel Mastram dará uma noitada na faixa para quem literalmente chegar lá primeiro.
A comunidade do Morro da Urca cancelou a feira para o dia seguinte.
O botequim do Cláudio lançou um bolão inusitado entre os clientes. Quem será o último da copa? Apenas dois clientes mal-educados votaram no Brasil.
O maternal da Vila antecipará o sono das crianças para poder ver o jogo.
Eu ainda não sei o que vou fazer no dia do jogo. Trabalhar é que não vou.
E a foice cortou a causa
Ainda tenho guardado uma camiseta do MST que costumava usar na época de faculdade. Desfilava pelos corredores sob o alvo de olhares distintos, ora admiráveis, ora incompreendidos. Por sorte (ou azar) engordei uns 10 kg de lá pra cá, o que me obrigou a abandonar minha sutil militância.
Nunca fui adepto do movimento. Nunca levantei bandeiras e cuspi ideologias. Aliás, este tipo de atitude me enojava, porque geralmente vinha de pessoas sem propriedade para mencionar atos de vandalismo ou rebeldia. Com o tempo e com os quilos minha admiração foi migrando exclusivamente para o propósito da reforma agrária. Confesso que a camiseta do MST foi a ponte pra certos conceitos que tive e, de certo modo, ainda tenho.
Hoje, não me agrada a idéia de que a “desobediência civil” do movimento tenha justificativa ideológica. Ao contrário dos manifestantes franceses, que conseguiram revogar uma lei ateando fogo em carros e apedrejando vidraças, a ira servil do MST é, numa referência pejorativa e má educada, um ato inglório de um bando sem causa. Sob a batuta de um suposto líder – o que já põe em dúvida a convicção dos militantes – eles parecem cada vez mais andarem na contramão de qualquer ideologia.
Invadem terras improdutivas, destroem mata nativa, arrebentam laboratórios, e agora destroem a Câmara. Dora Kramer da Agência Estado encerra seu editorial de hoje com as seguintes palavras: “O MST virou uma organização criminosa, cujo objetivo é solapar o princípio democrático do respeito à lei”. Mais uma vez, fazendo um paralelo com os protestos na França, aqui as motivações são frentes partidárias, facções lideradas por homens xucros sem qualquer mediação intelectual.
Está mais do que na hora de rever o rumo que está tomando este movimento cuja trajetória tem mais prós do que contras em décadas de ativismo. Se não houver uma reformulação imediata do movimento, suas enxadas e foices em punho, se tornarão em breve armas perigosas contra a bandeira da democracia.
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