Com gripe é quase uma luta pra poder pensar. Com febre é totalmente impossível trabalhar. Com dor de garganta é inviável comer e beber. Pois não é que de um dia pro outro acordei com os sintomas dessas três anomalias embutidos no meu corpo (ou algo parecido) e na minha mente. Até as tarefas mais simples são dificultadas por essa merda de doença. O pior é que é a minha segunda recaída em menos de um mês. Não sei mais o que fazer com a minha saúde. Ou o que faço na falta dela. Neste momento estou fazendo um esforço tremendo para digitar este post. Só pra passar o tempo. Caso contrário minha chefe teria um ataque de piedade e me mandaria pra casa. Mas eu prefiro guardar essa oportunidade para um dia em que tiver algo mais interessante pra fazer do que dormir, mesmo sabendo que há um sol de 30ºC lá fora. Pra uma coisa esta perturbação serviu: há dias que não postava nada aqui. Isso é para provar que, seja na saúde ou na doença, a vontade de blogar é maior que a vontade de dormir. Ou não?
“Em que o futebol se parece com Deus? Na paixão que desperta em muitos fiéis e na desconfiança que desperta nos intelectuais” Eduardo Galeano
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos” Nelson Rodrigues
“Não há experiência do corpo que não seja também da alma” Gilberto Freire
O jogo bélico de belos ataques, de artilheiros e armas defensivas. A partida do lirismo que parte da literatura, das prateleiras filosóficas antipatrióticas até o ensejo do desejo de ser uma nação. O que é o futebol se não “O Ateneu” moderno de Pompéia, das situações mundanas escondidas, percorridas num espaço reduzido. Futebol é o sacrilégio do universo. É o óbvio das sentenças enganosas.
A mistura harmônica dos lugares urbanos com nomes indígenas, com gentes estranhas, undergrounds, hippies e boys, do Anhangabaú à Parintins, do ABL à LBV, do Masp ao MST. A bola rola do Brasil afora com o slogan pós-moderno do mito fundador de nosso “sentir-se como povo, como fruto de um projeto nacional”. O futebol é isso. O futebol é a queda do discernimento diante da Casa Grande e da Senzala. É a resposta duvidosa do poderio da miscigenação. O futebol permite que um alemão branquelo sinta falta de um crioulo em seu time. O futebol permite abraços refinados/mal cheirosos entre o operário e o patrão.
O país da corrupção, da violência e da fome entregue aos caprichos milionários de um evento? Foda-se a razão expatriada quando se há no cerne das causas sociais o poder persuasivo do simbólico, do sagrado, da ilusão. Basta olhar pela janela para ver o mundo ideal, o mundo da copa do mundo. Até os estatísticos já podem se render ao poderio desta tenda circense de valores. O Brasil pára em números. O Brasil esquece seus crimes hediondos durante os 90 minutos em que a guerra se concentra no gramado.
Não há política nos atos passionais. Não há política nas patriotices do povo. Não se mistura Brasília com Ronaldos. Não se mistura a ira nacional diante das taxas lucrativas do Planalto com a lágrima indireta sobre as cornetas patriotas da partida. Nesses dois Brasis de mesmo brasão o futebol é a tentativa fugaz de uma unificação.
O Brasil não calças chuteiras. São as chuteiras que calçam o Brasil. Depois de julho voltaremos descalços para nossos muros de lamentações e Deus certamente irá clamar por mais um mês de paz ecoando pelas igrejas vazias.
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