Um capítulo, por favor
Passei uns quatro anos sem ver ao menos um capítulo de novela. Sempre tive um certo receio, uma tendência teórica que me levava a prejulgar o telespectador que não tirasse os olhos da tela. Para quem cursa ou cursou Jornalismo como eu, sabe do que estou falando. Na faculdade somos alimentados por teses acadêmicas, trabalhos científicos e artigos diversos que, de uma maneira ou de outra, criam no aluno desavisado um calafrio ao chegar em casa. “Mas como eu, super-jornalista, fui assistir uma coisa dessas?”.
Concordo que o discernimento e a capacidade ética não só de jornalistas como de qualquer outro profissional deve vir adiante de questões irrisórias, da vaidade, do ego etc. Mas hoje, formado e com tempo de sobra, não vejo mal algum em dar uma espiada na novela. Não que isso seja meu passatempo preferido, nem que ache que assistir TV é melhor do que ler um livro. No entanto, entregue aos braços confortáveis do sofá, nada melhor do que a tal da novela pra te por longe da órbita terrestre. A não ser que você tenha acesso a canais pagos, é claro. Para esses, este post não tem fundamento algum a partir desta linha porque é justamente sobre a carência de boa programação da TV aberta que falarei a seguir.
Fiz um teste rápido para ver se o fato de estar assistindo novela era mesmo voluntário ou uma espécie de “resquício qualitativo” em meio a tanta podreira. No mesmo horário, SBT, Record e Bandeirantes fazem questão que você mude de canal. Ah,muitos me lembrarão da TV Cultura, que talvez seja nossa única luz. Porém, às vezes a TV deve ter o simples papel de te relaxar, de evitar conflitos pessoais, de esquecer fatores conjugais, trabalhistas e financeiros e, no quesito entretenimento, a Cultura distribui muito mal seus horários. Só os filmes poderiam por a novela de canto das 21 às 22h. E elas nem são tão boas ou criativas assim, todos sabem disso. O difícil é encontrar algo além de roletas da sorte para tentar competir com as histórias que, mesmo sabendo o fim, nos põem além das barbáries reais da vida.
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