CC, TTD e a monotonia de um reles assalariado...

Terapia contra o complexo da vida ociosa

 

Ando com tempo de sobra para perder. Minha rotina diária tem se limitado a um roteiro simples, pragmático e, infelizmente, sem graça. Neste período de seca, nesta aridez de emoção, descobri que nem o ócio criativo suporta tantas horas sem avistar um compromisso mais sério pela frente. Fazer exercícios nem pensar. Ioga muito menos. Em meio a tantos complexos diagnosticados ultimamente, atingindo o cúmulo da sabedoria com o complexo de Diógenes, inauguro aqui o “Complexo da Complexidade”. O CC atinge comumente pessoas como eu, difíceis de lidar e entender que permanecem muito tempo sem fazer nada de útil. Pessoas complexas, ora ocas por dentro, ora cheia de idéias.

 

Tentei sair de casa para evitar uma nova crise de CC. Não adiantou. Acabei novamente em casa lendo bulas de remédio e catálogos de compra que, aliás, não são nada complexos. A televisão é uma das melhores indicações para o CC. Você se desliga completamente e deixa de pensar em salvar o mundo de dentro do quarto. Mas isso também causa dependência e dores nas costas. Até que descobri a Terapia da Tarefa Doméstica, a TTD. Para evitar o CC, comigo só funciona a TTD. E TTD nada mais é do que fazer a limpeza da casa. Você não se reprime por não fazer nada e ainda se sente normal por ser uma pessoa complexa.

 

Varrer, lavar a louça, passar pano, esfregar, jogar coisas fora, por o lixo na rua. Ah, como é bom se sentir importante quando não se tem nada melhor pra fazer. Nunca houve registros de empregadas que sofram de CC, pois nenhuma se preocupa com a guerra do Iraque enquanto come uma clube-social na cama. As nossas queridas domésticas, além do brilhante serviço prestado em prol do conforto do patrão, ainda estão livres do CC. É, do jeito que a coisa (não) anda, é melhor me ocupar logo com a limpeza antes que o CC vire CCC, Complexo de Complexidade Crônica. Então chega, vou desligar o computador que a roupa está no tanque...  

 

A vida como ela era. A vida como ela sempre será...

Nunca é tarde para Nelson

 

Descobrir Nelson é ter a certeza de que classificações literárias são tão subjetivas e imprevisíveis quanto os seus personagens. Ler Nelson é mergulhar no que temos de mais obscuro, é um desvelar do silêncio que nos protege, do  comportamento acima das suspeitas alheias. Talvez tenha demorado a entender que Nelson, nesta mistura refinada de linguagem chula e erudita, é muito pouco acadêmico para ser preservado às prateleiras. Deve ser  lido compulsivamente nos ônibus, nas rodoviárias, nas filas e nos bancos de praça. Ler Nelson sob a vigília permanente dos familiares é um desatino diante da normalidade.

 

Dizem que o poeta Manuel Bandeira o questionou certa vez: “Nelson, por que você não escreve sobre pessoas normais?”. A resposta não poderia ser outra: “Eu escrevo sobre pessoas como você e eu”. Pode ser. Mas até Nelson não haveria de negar a profundeza e a naturalidade com que seus personagens são retratados por suas mãos e mentes. Até mesmo o ser humano mais cheio de si que se preze sentiria náuseas ao ter seus traços pincelados pela visão míope de Nelson. 

 

Mas eu ainda não o descobri por inteiro, se é que isso é possível. Passei anos ao relento à espera desse fervor caricato nada convencional. Assim como nós, os personagens de Nelson nasceram para serem devorados à demasia pelo primitivismo da ignorância e pelo gosto um tanto amargo de nossas experiências. Mas, sem dúvida,  todos eles são demasiadamente humanos como nós. Por isso nunca é tarde para devorar Nelson.

 

 

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