Notas de um jovem safado

 

Hoje um amigo se queixou da falta de atualização deste blog. Por isso, para provar que não enferrujei, segue abaixo a síntese dos brilhantes acontecimentos que permearam sobre a minha árdua rotina durante esta semana:

 

 

Pela segunda vez em menos de um mês o alarme do vizinho disparou. Na primeira  foram dias seguidos sem que ninguém tomasse uma providência. Não sei se o barulho incomodava os outros, mas a mim soava como uma tortura. Eu, que sempre tive uma queda maior pelo o barulho do que pelo silêncio, não posso suportar mais o uníssono da extravagância. É, extravagância sim. Porque se ninguém da rua fez qualquer queixa até agora é porque a cerca elétrica em nada adiantou para a segurança.

 

Contrariando os puristas que dizem que torcer para o time dos outros é gozar (sem trocadilhos) do prazer alheio, para mim isso tem sido um ótimo exercício mental. Com o meu “curintia” longe de me satisfazer emocionalmente, o que me resta é vestir a camisa de quem joga contra os seus rivais. Pena que, num desses excessos de euforia, eu quase tive que ir embora mais cedo do bar. Tinha me esquecido que ser tachado de gaúcho é muito mais do que uma referência pejorativa. Ainda mais quando se está na casa do adversário. Viva o colorado!!

 

Estou faz alguns dias com uma dor de cabeça estranha. Talvez tenha sido o excesso de álcool do fim de semana. Mas nunca ela chegou tão longe. Hoje já é quinta, véspera de mais um dia propício para o porre, e a dor persiste. Talvez tenha a ver com o fato de eu ter bebido também na segunda, na terça e na quarta.

 

Minha editora nos liberou do trabalho na próxima segunda porque terça é feriado aqui em Sorocaba. Minha colega de trabalho, num desses evangelismos profissionais, dizia insistentemente que não era certo fazer a dobradinha. Para não dar margem às especulações, logo tratei de arranjar um compromisso inadiável para o dia, seja feriado ou não.  

 

Segunda comecei a ler (e não reler como Raul Seixas fez) Alice no País das Maravilhas. O livro merece um post exclusivo, mas eu ainda estou no primeiro capítulo e ela nem chegou lá no tal país ainda.

 

 

PS: O título foi adaptado do clássico de Bukowiski, mas eu ainda não li.

Sem São Paulo o meu dono é a solidão

Quando a pressa é a melhor amiga

 

Ainda na rodoviária, o homem da poltrona de trás esbravejava com a demora do ônibus. “Puta que pariu, logo hoje todo mundo resolve sair do formigueiro, porra!”, dizia sem se preocupar com os possíveis ouvidos puritanos que se encontravam ao lado. Mesmo em movimento, o homem com o sotaque “italianado” dos paulistanos, não se conformava com cada segundo a mais dentro do ônibus. “Ta ligado que o motorista ganha comissão com cada passageiro que ele pegar na estrada né?”, dizia, fazendo questão que todo mundo ouvisse. “Desse jeito ele vai ter que tirar o atraso na Castelo”.

 

Até a Barra Funda, nosso ponto de chegada, o homem, com quem infelizmente dividi meu espaço durante longas duas horas, se queixou do ritmo lento do motorista e, por assim dizer, da cidade que partimos. Toda essa angústia justifica-se: fora de São Paulo, seu cotidiano parecia em câmera lenta, num plano-seqüência monótono e sem ação, como num desses filmes de arte.

   

A minha condição de interiorano causou-me justamente a sensação contrária. Quanto mais nos aproximávamos da capital paulista, mais minha pulsação aumentava. O ritmo frenético da cidade causa aos visitantes esporádicos como eu  um estranhamento súbito. São Paulo é alucinadamente apressada, e isso não é nenhum diagnóstico cientifico. Na verdade, a pressa é o recurso básico de quem vive lá. A minha calma é que tornou-se inviável em meio a tanta buzina, gritos, manifestos, caminhões de som, músicas ao ar livre, conversas em dialetos africanos, ofertas de consumo, convites para sexo etc. A calma te faz perceber o imperceptível e isso não é lá uma grande vantagem para quem tem um objetivo, um destino programado.

 

Por isso a pressa anda lado a lado com os paulistanos. Talvez enxergar e pensar demais num caldeirão urbano como São Paulo seja um equivoco que só um transeunte disfarçado de turista que nem eu seja capaz de arriscar. Se todos parassem para olhar a beleza cinza que não estou acostumado a ver, isso poderia causar sérios danos ao funcionamento da cidade. Porque a pressa não é uma inimiga quando a vida é uma maratona ininterrupta.  

 

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