Um atentado em prol de nossas mentes e quintais.
Saio pouco antes das 9:00h de casa e eles já estão por toda parte. Quando volto, após às 18:00h, há dezenas espalhados pelo chão e na caixa de correio. Posso garantir que jamais solicitei a entrega de qualquer que seja. E mais. Jamais alguém perguntou se eu queria recebê-los. Pior que invasão de privacidade, os panfletos publicitários são, na melhor das hipóteses, uma agressão à natureza, pois poluem nossas casas e as ruas.
Pelo que sei há certas regulamentações para divulgar produtos através de catálogos. Mas pelo visto, na prática, só há aquele recadinho escondido no canto das páginas pedindo para “não jogar este panfleto em vias públicas”. E seu efeito educativo equivale ao “beber com moderação” das propagandas de cerveja, ou então ao aviso do Ministério da Saúde nos cigarros. Sim, deve haver gente que não joga aqueles papéis após lêem o que está escrito, se é que tem algo escrito. Contudo, pelo que observo nas ruas de casa, ninguém se importa muito com a coleta destes panfletos, inclusive quem os distribui, porque não é difícil ver casas vazias com dezenas deles na garagem. Isto, além de um ato de vandalismo, é um desserviço tanto para quem os paga para divulgar seus produtos, quanto no seu papel de cidadão. Está certo. Eles devem ganhar uma miséria pra sair às ruas colocando nas casas o produto dos bem sucedidos homens da pátria. Mas isso não justifica o descaso com que esta publicidade é praticada, principalmente pelos grandes supermercados.
E com as eleições, numa proposital colocação ambígua, a sujeira deve aumentar ainda mais. Não sei por quanto tempo vou tolerar aqueles sorrisos fabricados me dando um bom dia forçado. Se as ofertas de compra já me irritam profundamente, imaginem as ofertas ideológicas. Os políticos deveriam ao menos se limitar a apenas exibir suas fotos, evitando assim o nosso constrangimento diante de suas propostas infundadas.
Mas a batalha não está perdida. Podemos, numa atitude simples e prática, mostrar nosso apreço por panfletos publicitários de qualquer espécie, como Tyler Durden, o personagem paranóico de Clube da Luta. A partir de hoje, começarei a juntar cada panfleto que aterrissar em meu quintal. Daqui algum tempo, quando o acúmulo permitir um bom atentado, irei pessoalmente aos supermercados, restaurantes delivery e sedes de partido devolver o que me deram sem eu pedir. Quem sabe com suas caras e nomes espalhados como lixo eles não se dêem conta do favor que farão para nós se pararem de nos incomodar.
Por um futuro sem clicks
Ver o filme “Click”, comédia com Adan Sandler em cartaz, poderia ser apenas um entretenimento barato movido a tantos clichês que o condenaria ao esquecimento imediato. Realmente a história do pai de família que se prende exageradamente ao trabalho não é lá uma novidade. Milhares de filmes já levaram esta temática para as telas. De original restou apenas a idéia do controle remoto que permite avançar, pausar, retroceder o cotidiano do protagonista. Dá para rir em alguns momentos, por incrível que pareça. No entanto, o tom moralista do final, voltado ao conforto do público que não suportaria tanta tragédia num filme que foi feito para divertir, foi para mim, o “melhor erro” do filme. Sim, pois se a trama opta pela conveniência, eu optei pela auto-crítica.
Apertar a tecla “mute” para o latido do cachorro, pausar o vizinho chato e agredi-lo, avançar momentos difíceis em busca da tão sonhada promoção no emprego são algumas das situações ocorridas no filme. Esta última, aliás, a principal delas, pois irá desencadear uma torre de babel de frustrações. E é neste ponto que nos tornamos protagonistas. Quem não tentou aliviar a tensão do dia-a-dia projetando suas condições atuais a um futuro melhor? E quem não agüenta mais a própria vida e, antes de dormir, sonha com o dia que talvez jamais virá?
São a partir dessas indagações que o moralismo se aplica. Apesar de ser confortavelmente viável, a ambição por dias melhores não impede que muitas perdas possam ocorrer. E agora não estou me referindo ao que ocorre no filme. Longe da perda de um ente querido ou um membro da família, o défict é na experiência de viver sob pressão. Claro, isso pode não ser agradável se levado ao extremo, mas para quem quer se “calejar” das crueldades da vida o melhor a fazer é enfrentar o leão nosso de cada dia. (Aí, Já estou influenciado pelo tom moralista do filme). Sem condenar os que não tem onde cair morto e sofrem com a falta de oportunidades, avançar no tempo definitivamente não é a melhor opção para quem quer superar os problemas. E depois, quem sabe, poder dizer sem mágoa que a vida é muito mais que um controle remoto.
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