Porque tradição é uma questão de opinião...

O Saci e o chapéu de vaqueiro

 

A exemplo de outros municípios do estado, Sorocaba tenta, através de projeto de lei, instituir o Dia do Saci na cidade. A vereadora responsável por esta sugestão justifica dizendo que é importante “preservar as tradições nacionais diante da influência de culturas externas”. Curiosamente, na mesma justificativa, ela reconhece que até mesmo o Saci é fruto de uma fusão de elementos europeus com folclore brasileiro (o que seria o folclore brasileiro? Macunaíma?). E a data escolhida não poderia ser outra: 31 de Outubro, mesmo dia em que é comemorado o Halloween norte-americano. Resistência cultural à parte, eu ainda prefiro o Saci do que “travessuras ou gostosuras”. No entanto, este “brasilianismo” proposto em plenário soa cada vez mais oportunista à medida em que um análise profunda de nossos patrimônios culturais mais difundidos fora do país é posta em discussão. Afinal, não é novidade pra ninguém que até o samba é conhecido por reinventar o que o jazz criara anteriormente. Aliás, “reinventar” talvez seja a palavra mais apropriada para designar a cultura nacional. Nossos elementos típicos são, com exceção dos vestígios indígenas que ainda resistem, uma mistura proposital de elementos principalmente europeus com fatores supostamente “brasileiros” como o clima, a miscigenação, a dimensão territorial. Ah! e os índios, claro.

 

Mas paremos por aqui. Esta discussão acadêmica pode levar anos para ser resolvida em um blog. Então vamos ao que interessa:  a “tradicional” festa do Peão de Barretos. No dicionário, o substantivo tradição aparece como costume, transmissão de fatos, lendas, valores etc. Já o adjetivo tradicional é simplesmente o que foi vindo ou conservado por tradição. Em suma, a festa, só pode ser considerada uma tradição se for vista como um evento que ocorre há 50 anos, passado de diversas formas de geração a geração. Porém, devido à suas profundas transformações ao longo dos anos, a festa do peão de Barretos jamais será tradicional, pois não teve seus valores iniciais conservados ou preservados. Da original só restou os bois bravos.

 

Quem for a Barretos durante esta semana poderá ver shows de rock, eletrônico e talvez, um pouco da tradicional (??) música sertaneja. Sem levar em conta a influência da cultura country, a festa do peão de Barretos é apenas um evento qualquer onde as pessoas combinam de se encontrar sem qualquer vínculo aparente. É como um bando de turistas numa praia metropolitana. A sorte é que daqui a algum tempo poderá haver algum político ufanista que queira instituir Barretos como a capital do chapéu de vaqueiro do país. Se bem que ele também já está caindo em desuso. E o que o Saci tem a ver com tudo isso? Bem, ele pelo menos ainda usa sua tradicional boina vermelha como os revolucionários franceses.  Então, Barretos que se vire porque tradição é outra coisa.   

 

 

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