Procura-se candidato que não seja nulo
Há uns dois anos, se não me engano durante as eleições municipais, eu e um amigo discutíamos, entre um gole e outro de cerveja, o valor do voto nulo diante da patifaria política nacional. À época defendido incondicionalmente por mim, anular o voto parecia ser a resposta ao desacato público da indiferença mútua. Explico: se eles não fazem nada, eu é que não vou fazer algo por eles. Ou, numa visão ainda mais radical, eu é que não vou sustentar os parasitas do poder. Tudo bem, mesmo naqueles tempos de revolta ideológica eu já tinha a convicção de que a política ortodoxa é o único caminho para não jogar às favas nosso modesto título de eleitor. Sabia também que, ao defender a condição do voto, meu amigo estava exercendo da melhor maneira sua condição de cidadão.
Talvez eu estivesse sob o efeito “Saramago” de recusa à democracia representativa. Ou simplesmente ignorava o desperdício que anular o voto significa, porque em meio a tantos imbecis (olha eu revoltado de novo) alguém deve prestar. No entanto, lembro que uma das justificativas de meu amigo, e hoje defendida por nomes como Alexandre Garcia, é a de que, o “menos pior” ainda pode ser melhor que o voto nulo. E acho que é nesse ponto de vista que meu postulado político de outrora permanece.
Hoje concordo com a viabilidade do voto e com suas conseqüências práticas. É sabido, por exemplo, que quando um político tem seu eleitorado forte em determinada região, é lá que sua atuação será mais efetiva. Isso não é novidade pra ninguém, mas demonstra como votar faz sim diferença. Mas daí apoiar um “desconhecido” só por não ter que anular o voto, eu discordo. O voto nulo, como nos tempos do rinoceronte Cacareco, não se apresenta de uma única forma. Ele se manifesta também no descaso, na ausência de discernimento ao fazer a opção.
Só a informação tem a capacidade de convocar o eleitorado a descer do muro, dando nome aos bois, opinando, argumentando, listando e divulgando posições políticas, doa a quem doer. Porque nós, reles cidadãos, ao demonstrarmos nossa aversão aos que, com o aval da justiça, nos representam, estamos simplesmente demonstrando nossa impossibilidade de enxergar além dos santinhos descartáveis. Ou você acha que conhece as atividades parlamentares de seu candidato? Dá uma olhada no site www.transparencia.org.br e veja quem são. Confesso que ainda não encontrei alguém a altura do NULO. Mas ainda há esperança, como sempre...
Quando coexistir é o melhor remédio
Na poltrona 3 do ônibus, numa viagem de pouco mais de uma hora, pude notar a cumplicidade dos motoristas. Todos (sim, todos) se cumprimentaram, trocaram sinais, buzinaram um ao outro, sem distinção alguma, apenas pelo fato de serem colegas de profissão. Não chega a ser uma relação afetiva, um laço sólido de amizade, mas o respeito mútuo induz a um comportamento também respeitoso durante as inúmeras viagens. Quando se cruzam, o aceno é espontâneo. Quando estão na mesma direção, um faz questão de dar passagem ao outro. Creio que a efemeridade desta relação é a prova de que “coexistir” é tão ou mais importante quanto “conviver”.
Embora tenha ouvido milhares de vezes isso de um experiente jornalista que me “apadrinhou” logo que me formei, coexistência parece ser ainda a maneira mais fácil de manter a ordem. Se não queremos conviver com a pobreza, ao menos saibamos coexistir com ela. Isso serve para quem abomina homossexuais, punks, negros, índios e por aí vai. Coexistir não é conviver. Coexistir não requer mais do que um aceno; é apenas um simples ato de dar passagem, de respeitar a fila, de obedecer as normas de um condomínio. Conviver é quando as circunstâncias da coexistência criam certos laços, afinidades, ou “vícios” em comum, nem que isso dure apenas o tempo de um cigarro na varanda.
Mas até aquele aceno inofensivo dos motoristas pode se reverter numa concreta convivência. Ainda na faculdade, lembro de um pequeno abrigo para os motoristas de ônibus e vans esperarem os alunos durante as horas de aula. Bastou uma mesa de bilhar para que todos eles passassem a conviver prazerosamente. A monotonia da espera se tornou num divertido passatempo e a hora de levar os alunos de volta pra casa ficou mais curta.
Esta semana chega a São Paulo a mostra itinerante “Coexistence” criada por um israelense. Os imensos painéis serão expostos ao ar livre e trarão conteúdos mostrando a importância da coexistência acima do desejo utópico de conviver pacificamente. Quem sabe algum desses outdoors não sirva de exemplo para o nosso desejo incansável de esganar o próximo.
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