Notas de um jovem safado II

 

Sabe aquele silêncio constrangedor que bate no primeiro encontro com uma mulher? Ou então aquela gaguejada inofensiva que nos escapa quando o chefe pede nossa opinião? Deve ter uma explicação científica para isso. Algo do tipo Disfunção Molecular do Lóbulo Cerebral Esquerdo. Ficaria contente se soubesse porque me distraio quando mais preciso de concentração. Será falta de Omega 3 ou é a minissaia da secretária? 

 

Nunca me preocupei tanto com aquelas tabelinhas nutricionais das embalagens de alimentos. Até quando como uma mísera fatia de queijo mastigo com os olhares atentos para o quadradinho minúsculo com as terríveis informações que nos amedrontam o paladar. Não que eu esteja obsessivo por dietas ou coisa parecida. E também não é caso de me sentir comovido pela anoréxica da novela das 7 e nem pela bulímica das 8. É só pra saber se vale a pena substituir um macarrão instantâneo por duas cervejas e uma porção de amendoim. No fundo deve dar tudo na mesma.

                                                              

Tudo bem. Se fosse mesmo importante a turma do Observatório da Imprensa já teria feito suas ácidas observações. Mesmo assim, toda vez que vejo aquela multidão empunhando um monte de cartaz atrás dos apresentadores do Jornal Nacional, me irrito profundamente. Porque? Não sei. Talvez eu esteja morrendo de inveja de não ser da equipe da tal caravana JN. Ou simplesmente porque temo que os outros telejornais adotem a idéia (como é de praxe) como símbolo de inovação.

                                                       

Achei um livrinho de Sudoku perdido no meio de umas revistas em casa. Foi conseguir terminar meia dúzia de partida para o bendito passatempo virar um vício aterrorizante. Agora, além de me retratar com a quase esquecida Matemática, vou ter que tomar cuidado com as retaliações no trabalho, pois junto com o café, sudokar é um ótimo motivo para dar uma pausa inusitada no meio da tarde.

 

Perdi meu celular novamente. Estou há um mês sem e não sinto falta. Não quero voltar a escrever sobre este tema, mas garanto que o fato de ligar por acaso ao meu próprio número e ser avisado de que “este celular não é mais dele (meu)” daria uma boa crônica. Até recado a “nova dona” do celular prometeu dar quando alguém ligar me procurando.

 

 

 

O câncer nosso de cada dia

 

O cigarro de James Dean era o primor das cocotinhas desvairadas, virgens desbocadas prontas para o abate. O charuto revolucionário do El Fuser gerenciava a calmaria na trincheira inconstante de estudantes de esquerda. Afinal, o cigarro é a maneira disfarçada de suspirar, disse um dia os pulmões inflados do poeta quase inato Quintana. Fumar é a representação blasfêmica da influência involuntária. Fumar é belo como Dean, revolucionário como Che e poético como Mario. Sem contar a vicissitude alucinógena de outras fumaças, o cigarro com selinho industrial é o câncer capital da industria do consumo. E isso não é moralismo social, é tabagismo moral, é consciência banal de que somos caretas quando o assunto é ser autêntico. Fumar é o hábito desabitado de nossos “eus”. A cada baforada da globalização um óbito é posto em escala mundial das estatísticas. E o que isso importa se o trago intragável das campanhas contrárias não consegue convencer que não fumar é melhor do que sentar no ponto de ônibus e acender um cigarro. Ah, como é bom ter a companhia silenciosa das companhias de tabaco. Ah, como é bom tragar ao tom de Tom e saborear a cólera de saber que se está morrendo, embora podendo deixar na memória a imagem imortal de uma sexy tragada. Fumar é a pedagogia persistente da personalidade. Fumar é a falta de personalidade diante de uma pedagogia persistente. Pois até os que não fumam acabam dando suas tragadas. Então acenda logo este carcomido canudo branco para eu por em prática as cinzas da minha incoerência. 

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