A indispensável imoralidade de Lorde Henry

 

Os livros que são tachados de imorais são os que mostram ao mundo a sua imoralidade.

 

Ao terminar de ler “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde fui tomado por um silêncio abusivo, atormentador, que induz inevitavelmente a indagações sobre a constituição moral de nossas vidas. É, de fato, uma obra prima. Não somente por ser rigor estético (dada a qualidade literária de seu autor), algo que curiosamente é o ponto chave das reflexões do personagem mais intrigante do livro, Lorde Henry. È nele – e não no jovem Dorian – que se solidificam os bem argumentados rompimentos, os conflitos e as visões particulares de um homem que valoriza o belo acima de todas as coisas. Alguns trechos sobre relacionamento, juventude, diferenças entre homens e mulheres, se fossem ditos por um homem de carne e osso seriam considerados heresias. Não há como questionar Lorde Henry sob aspectos moralistas. Suas palavras irônicas são ditas com tanta convicção – e levadas ao pé da letra por Gray – que é impossível considerá-las infundadas. Durante a leitura de Dorian Gray a tarefa mais difícil é conseguir não pensar como Lorde Henry, mesmo tendo no personagem-título a comprovação de seu exagero filosófico. Em mim, após a leitura, ficou uma leve sensação de vergonha, como se cada palavra escrita estivesse indiretamente tentando me provocar. È um dos poucos livros que me estimularam a querer a releitura. Perfeito!!

"A pior coisa deste mundo, o pecado para o qual não há perdão é o tédio."

"Agouros, sinais, são coisas que não existem. O destino não costuma enviar arautos. É muito sabido ou muito cruel para fazer isso."

"Como as mulheres adoram o perigo! É uma das qualidades femininas que mais admiro. A mulher namorará qualquer sujeito deste mundo, contanto que haja espectadores para seu flerte."

"A base de todo escândalo é uma certeza imoral."

"Saber seria fatal. Na incerteza é que está o encanto. O nevoeiro dá às coisas aspectos maravilhosos."

"É difícil perder um hábito, mesmo o pior. Talvez seja até o que mais custa. Os maus hábitos são uma parte essencial da nossa personalidade."

 "Há sempre um laivo de crueldade em todo prazer, talvez em toda alegria."

"Possivelmente nunca parecemos tão à vontade como quando temos de representar um papel."

"É absolutamente monstruoso o modo como se difama uma pessoa pelas costas, dizendo-se dessa pessoa coisas absoluta e inteiramente verídicas."

     "Quando a mulher torna a casar é porque detestava o primeiro marido. E o homem, porque adorava a primeira esposa. As viúvas tentam a sorte; os viúvos arriscam-na."

 

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