Epitáfio de um belo jovem de alma horrenda

 

Encarou-o com cólera quase implorando para que mudasse sua conduta ingênua e submissa. Olhava-o atentamente, analisando a face que não aparentaria jamais cometer tais erros no futuro. Os olhos serenos, os lábios contornados por uma segurança emblemática, demonstravam um certo ar de arrogância, mesmo quando não dizia sequer uma palavra. Não suportaria mais esses encontros casuais, até porque sabia que seria impossível evitá-los. A qualquer hora do dia ou da noite se encontraria com si mesmo. E para isso bastava-lhe a mísero reflexo de um orvalho.

 

Olhar para dentro de si, enxergar além das células formosas de sua condição externa, não era um exercício agradável. A cada encontro, sua alma se desligava de seu corpo e esta dualidade era terrível. Por fora, uma beleza estranha, narcísea o suficiente para torná-lo escravo de sua face. Por dentro, cada ato em vão, cada escape moral, se tatuavam nos gestos e nos pequenos movimentos que fazemos quando rimos de nossa própria tragédia.

 

Mesmo insuportável, não teria outra escolha senão viver imune às prelazias de seu tempo. Faria jus ao que prometera diante do espelho e trocaria sua alma pela beleza da perenidade, pelo sabor irracional da vida prazerosa.

 

Alguém aí sabe por onde andam as pesquisas?

 

A poucos dias da eleição, uma amiga me faz um comentário aparentemente inocente: “Puxa, nenhuma pesquisa me perguntou pra quem eu vou votar”. Após uma breve onda de risos, uma velha questão me veio à mente: quais os critérios para que um levantamento que ouve nem 1% do eleitorado seja considerado a mais pura representação da realidade? A resposta automática poderia se basear na simples margem de erro destes fidedignos institutos de pesquisa, não fosse a variação e distanciamento histórico que as urnas revelam após a eleição.

 

Como qualquer estatística (e não precisa ser matemático para afirmar), os números da corrida eleitoral projetam seus levantamentos em campo a uma dimensão supostamente correta, considerando sempre as generalidades de cada região, cidade, estado etc. Agora eu me pergunto: como saber se há 45% de negros no país sendo que muitos afrodescendentes se consideram mulatos, pardos ou até brancos? Isto é, como utilizar dados oficiais sendo que eles podem não ser tão oficiais assim? Na esfera política a pergunta se repete, alterando somente certos aspectos de suas argumentações “científicas”.

 

O problema é que, a partir de determinado momento, o que se torna oficial são somente as estatísticas, que acabam interferindo não só em questões de cotas para negros, por exemplo, como também na decisão de quem pretende votar neste ou naquele candidato. Ora, por que irei acordar cedo, pegar fila, decorar santinhos, sendo que meu candidato não tem a menor chance de vencer? Eu mesmo (e isto não é nenhum dado numérico) já ouvi vários eleitores dizendo isto.

 

O que fazer então? O certo seria dizer para cada um votar conscientemente naquele que entende como ideal para representá-lo. Mas prefiro dizer um dos maiores chavões desses políticos-quase-anônimos que pleiteiam um lugar ao sol mesmo tendo seus míseros 30 segundos para dizer como: Não acredite em pesquisas!    

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