Fragmento Urbano

 

Ouvia Led Zeppelin em seu quarto enquanto dixavava um fumo comprado há poucas horas num bairro próximo. Estava nervoso. Tinha acabado de tomar um enquadro da PM, mas foi salvo por um crioulo que acabara de furtar um tape na rua detrás. Levou uns tapas, mas conseguiu levar a erva pra casa. Fumava em sua cama e lembrava da cena. A cada trago prensado no peito, um riso maior se consolidava em seu rosto. Foi salvo por um preto ladrão que provavelmente deve ter apanhado o dobro por ser preto e o triplo por ser ladrão. “Foda-se”, pensava o rapaz. Nada tinha a ver com a índole dos gambés, muito menos com a daquele neguinho que não devia ter o futuro garantido como o dele, por isso dava seus pulos na criminalidade.

 

Mês seguinte e ta lá de novo o playboy com cinquentão pra pegar mais beck. Foi com dois amigos, mostrando confiança e conhecimento. Sabia que a chance de uma nova geral seria coisa impossível. Parou, pediu, comprou, levou embora. Enquanto isso, nas rádios e jornais, o seu sobrenome estampava as manchetes por um crime hediondo de desvio de conduta paterna. A partir daquele dia, teria que enviar alguns currículos para sustentar o hábito, pois a grana do seu pai foi devolvida para os tantos crioulos que levaram tapas e pontapés nos últimos anos. 

O Universo pelo buraco da fechadura II

 

A descoberta dos dois cientistas americanos, prêmios Nobel de Medicina deste ano, aguçou as esperanças para a cura de várias doenças, entre elas, alguns tipos de câncer e Aids. Ainda há muito a pesquisar sobre o tal do RNA de nossas células, mas a cada passo dado pela ciência, fica maior a nossa expectativa de vida em condições normais. Se pensarmos que em 1950 nós brasileiros vivíamos menos de 60 anos em média, pode ser que daqui algumas décadas novos Matusaléns possam aparecer por aí.   

 

Nenhum povo parece rir e chorar de si mesmo como o brasileiro. O pior é que rimos de nossas desgraças e choramos em nossas conquistas. A mais recente piadinha que anda freqüentando os botequins é a de que “foi só um brasileiro ir para o espaço para que um planeta sumisse”. Quer prova mais representativa desta dicotomia típica de nossa opinião pública. Pelo menos somos bem humorados.

 

Tentar imaginar a cena do avião da Gol sobre o Parque do Xingu é inviável, mesmo porque muitos repórteres estão tentando descrever de forma não apelativa o que relatam. A falta de acesso ao local contribui para isso e, apesar de a curiosidade ser inerente à nossa condição humana, acredito que este acidente se safará das lentes sanguinárias da imprensa sensacionalista. No entanto, basta lembrar da lamentável cena dos Mamonas Assassinas destroçados para por em dúvida a convicção desta afirmação.

 

Falando em sangue, alguém aí já assistiu o filme O albergue? Para não criar teorias mirabolantes sobre uma produção que se rotula de entretenimento, digo apenas uma palavra: desnecessário. Numa avaliação rápida, o único critério que não levaria a nota 0, é na categoria “gostosas atrizes coadjuvantes da primeira metade do filme”. As mulheres são dignas de uma pesquisa no Google.

 

Nicks revoltados, emails furiosos, sites, blogs etc, etc indignados com a volta dos mortos vivos da política. Mas, em  meio a tanto alvoroço, uma opinião contundente: vocês se lembram de algum veículo de massa mencionar Maluf, Collor em seus palanques? Simplesmente os jornalistas políticos ignoraram esses caciques para destacar quase que com exclusividade os escândalos do Governo Federal. Agora é só esperar o tempo passar para que voltem a falar nos que “roubam, mas fazem”.      

 

A televisão da música e seu circo de fantoches

 

A Cicarelli resolveu dar (!) uma pela frente. Ou, mais precisamente, na sua apresentação no VMB. Linda como sempre, esbravejou, gesticulou, distribuiu sorrisos e gemidos para a platéia convencida. Até aí tudo bem, afinal, neste mundo de pseudo-inteligências e ultracelebridades é difícil alguém se sujeitar à replica diante das lentes e das penas fúteis  de paparazzis e cia. Mas a Dani que me perdoe: vê-la de biquíni se esfregando na praia é muito mais do que mera invasão de privacidade. Na verdade, apesar de ser mais sugestivo do que explicitamente violável, e ela não ser flagrada dentro de sua casa e sim num espaço público, aquelas cenas serviram para dar um novo sentido para o voyeurismo: o da realidade com água até a cintura.

 

Falando em discursos quase engajados em emissoras metidas a moderninha, o da Pitty se superou. Falar que, ao receber o prêmio de melhor alguma coisa (argh!), foi a vitória do cérebro sobre o império das bundas é demais para qualquer um que já tenha sofrido ao som de Admirável Ship Novo (será que ela leu Huxley? Se leu, será que entendeu?) e outras pérolas. Está certo que em comparação com os tchans da vida, a Pitty pode ser considerada um exercício de física quântica. Mas daí a se intitular a cerebral-mor num evento que reúne só fantoches da indústria fonográfica (com algumas exceções, claro), é o fim da picada. E, pra ser sincero, sou muito mais as pernas e as bundas das Sheilas do que o cérebro da Pitty.

 

Falando em competição, bandas como Nação Zumbi que me perdoem, mas está difícil suportar a programação quase virgem da emissora. São grupos, cantores e cantoras que nasceram para qualquer outra coisa, menos pra subir num palco. O pior é que essas bandas adolescentes estão caindo no erro de querer “algo mais além de simplesmente cantar”. Quando soltam discursos políticos dá vontade de chorar...Nunca senti tanta vontade de gritar “Toca Raul” na minha vida quanto agora.

 

 

Como a Pollyana do livro homônimo, tudo tem seu lado positivo. E o VMB ao menos conseguiu algo de inovador. O selinho dos VJs, numa simulação  a la Brockeback Montain, foi uma idéia interessante, pois a tarefa de realizá-las foi incumbida a dois heterossexuais teoricamente bem resolvidos. Não que essa brincadeira camuflada de atitude vá levar a algum manifesto libertário. Na verdade, a beijoca foi uma criativa publicidade para o Beija Sapo homossexual. Este sim, a maior atitude antipreconceito da televisão brasileira.

 

  

 

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