Fragmento urbano III

 

J. Alves comprou uma moto. J. Alves não comprou o feijão. J. Alves comprou uma moto, não comprou feijão, mas levou cachaça pra casa. J. Alves bebia escondido. J.Alves não bebia aos domingos. Num domingo J. Alves pegou sua moto pra ir ao mercado, esqueceu do feijão, comprou a cachaça e bebeu apesar de domingo. J. Alves, que bebia escondido, voltou a beber à vontade, por isso esqueceu do feijão. J. Alves que bebia à vontade naquele domingo não levou o feijão, matou a cachaça, bateu a moto e voltou a beber escondido. J. Alves comprou uma moto, não comprou o feijão, levou a cachaça pra casa, mas bebia escondido depois de beber à vontade. J. Alves não bebia aos domingos, mas bebia à vontade, voltou pra casa sem o feijão, passou a beber escondido, pois bateu a moto a última vez que foi ao mercado. J. Alves bateu a cachaça, esqueceu da moto, parou de beber aos domingos, voltou para casa sem ir ao mercado e morreu de feijão. 

Uma casa, um lar

 

Uma casa não é a simples composição de figuras geométricas feitas com materiais sólidos. Uma casa também não é exatamente um local de infraestrutura rígida com espaços individuais e coletivos. Uma casa, por mais que não tenha figuras geométricas exatas e materiais realmente sólidos, por mais que não tenha infraestrutura adequada, é sempre um emaranhado de coisas liquidas e subjetivas. E é aí que uma casa se torna um lar composto de cores, perfumes, temperos e vozes próprias. Um lar sem cores, perfumes, temperos e vozes próprias não é um lar, é uma casa. E uma casa sem cores, perfumes, temperos e vozes próprias é uma simples composição de figuras geométricas feitas com materiais sólidos que não tem exatamente uma infraestrutura rígida com espaços individuais e coletivos. Quando uma casa não é um lar, ela não tem cor, tem escuridão. Quando uma casa não é um lar, ela não tem perfume, tem fedor. Quando uma casa não é um lar, ela não tem tempero, tem amargura. Quando uma casa não é um lar, ela não tem vozes, tem silêncio. Uma casa sem lar é um abrigo inerente à solidão.

 

Fragmento urbano II

 

Clarete não nasceu puta, mas sempre gostou de sexo. Até demais. Perdeu a virgindade aos 13, fez um filho no ano seguinte e abortou o segundo dois anos depois. Clarete dizia que não nasceu pra ser puta, mas era uma das melhores da casa onde trabalhava. Chegava cedo, punha as coisas em ordem, fazia tudo o que o cliente queria e ainda era caixa quando as outras trepravam. Clarete gostava de ser puta e, apesar de não acreditar em nada desde que um desgraçado gozou na sua cara, dava graças a Deus por ter um trabalho digno. Hoje, Clarete é uma exemplar dona de casa e continua a ser puta, mas de um homem só. Aquele mesmo que gozou na cara dela e que nas horas do aperto ela chamava de Deus.

Fragmento urbano I

 

Bill era um daqueles classe-média mediano, um pouco acima do peso e com muitas notas amassadas na carteira, mas de pouco valor. Tinha nome de rico americano, embora fosse um desses brasileiros que fogem às tabelas do IBGE, mas sempre se prontificam a falar do país. Bill, que um dia teve que faltar do trabalho porque sua filha estava com não sei o quê e chorava pra caralho. Bill, que tentou ler o seu contrato de trabalho, mas foi interrompido por um trabalho extra. Ah, esse Bill! Sempre tentando se livrar do batente...Mas um dia o Bill se irritou, mandou o chefe tomar no cu porque sua família era mais importante. Foi todo orgulhoso pra casa, mas quando chegou só não foi atingido por uma panela porque usou a firula de quando jogava bola pra se livrar do ataque infame da mulher. “O que você está fazendo aqui, seu desgraçado vagabundo?”, esbravejou a pseudo-senhora anti-trabalho com os dois pés no balde de água quente. “Vim cuidar da minha filha”, respondeu. A mulher, que já havia dado uns tapas na criança que agora chorava de dor e não de fome, dizia que era manha da menina. E Bill, como sempre, não disse uma palavra pra não ter mais dor de cabeça. Apenas teve uma baita saudade das ofensas do patrão.

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