Fragmento urbano IV

 

Antes da Mercedes conhecer o marido, ela era uma daquelas coroas saradas que tumultuam as filas do banco com seus olhares sem fundo e sorrisos à prestação. No auge da forma ela abusava das minissaias e desfilava nas ruas sem maiores intenções. Era uma santa imaculada, apaixonada e satisfeita. As provocações mundanas eram o pecado imaginário que jamais colocaria em prática. 

Quando a Mercedes bateu a casa dos 120 quilos, ela demorou a perceber que já não agradava nem dentro e nem fora de casa. Comia como uma porca no cio, mas ainda passava horas no salão de beleza com a esperança de resgatar o casamento. Mercedes começou a engordar depois que ouviu do único homem que a comeu durante 20 anos que não a amava mais.

Em pouco tempo aquela Mercedes desejada por todos tornou-se a Mercedão, um ser exótico, inimaginável nua. Desligou-se da vida e de qualquer vaidade. Mesmo assim não abandonou a fidelidade, nem mesmo quando o seu marido passou a dormir dia sim, dia não em casa. Cada vez mais, sua única satisfação sexual era comer incansavelmente.  

No hospital, à beira da morte, pediu ao marido que levasse a amante para conhecê-la. Como já não havia esperança alguma numa sobrevida, o marido saiu e voltou num quarto de hora com sua nova mulher. “Vamos nos casar assim que você morrer”. “Mande-a entrar, por favor. Sozinha”. Ao passar pela porta, Mercedes não se conteve com a visão que lhe fixara os olhos. Sua rival era, na verdade, um homem terrivelmente gordo e feio. Antes do uníssono fatal da aparelhagem que a mantinha viva, Mercedes teve forças para deixar um último sorriso, o da satisfação de, ainda gorda, ser mais bela do que aquele homem que agora ocuparia o seu lugar.

Coisa de viciado

 

Vício e reza, vice-versa?que calunia é essa?os vício é o viço da vida viciosa? Que é isso rapa! Aqui ninguém é de usá bobagem, é tudo gente de bagage de apego ao senhor. E pare logo co’esse papo de dotô e dá um jeito nesse povo desgraçado sem farinha e sem fulô. Eta mania de piedade!!!, drogado é tudo viciado, tudo farinha do memo saco! Tem que dá remédio pra essa gente, dá até pra dor de dente e pra não se resfriar. Dá vitamina, soro, mate, cafeína, pra esquecê a cocaína que com certeza vai curar. Senão curar vamo atrás de pai de santo pra acabar com o seu pranto que só faz ocê piorar. Porque pra ficar bom tem que ser como lá em casa, que cortei logo as asa de quem não souber rezar. O meu fio do primeiro casamento, esqueci o nome do elemento, anda muito devagar. Não vai na igreja, bebe sempre uma cerveja e eu só tenho uma certeza: eu é que não vou te sustentar. Pra mim ele é coisa do diabo, chamam ele de viado, e não adianta ser educado, ele não sabe como andar. E aqui em casa não é nenhum hospício, nóis não temo nenhum vício, por isso ele nunca vai voltar. Ser viciado é coisa de indecente, não é coisa de boa gente, não acontece no meu lar.

Semiótica

Para comprovar a tese do post abaixo

A moda e seus sacos de ossos...

 

Receita para o estilista do futuro

 

Percorra a África de Cabo a Cairo, diga aos famélicos continentais com sorrisos funerais que aquilo é o padrão comportamental deixado por seus colonizadores. Diga também que a obesidade está fora de moda, apesar da abundancia de comida que há do outro lado do globo. Pegue uma ou duas negrinhas no colo e leve a Milão, Madri, Paris para que os estilistas dêem a elas um pedaço de futuro. No futuro monte a Misery Fashion Week durante quatro semanas por mês e fale dos sonhos das branquinhas bundudas em ser magrelas como elas. Retribua o sorriso a todas as crianças que sorrirem para que esqueçam do almoço que não vem há dias. A África será o roteiro da moda do novo milênio. Haverá migrações em massa de italianas, francesas, brasileiras e espanholas para os Spas da Seca Permanente, que pendurarão cartazes com slogans do tipo “Aqui sua massa corporal estará sempre abaixo... da linha da pobreza”. Sobrará comida no mundo e a África será referência em beleza no mundo da moda. As gostosonas braquelas sonharão com uma pele negra envolta aos ossos. As praias abolirão seus espetinhos de camarão para oferecer doses de vento em seu cardápio.

Não diga nada sobre os vetos que os homens fazem às magrelas e das punhetas que oferecem às que hoje ostentam quilos de lasanha em seus pomposos traseiros. Não mencione uma palavra a respeito das cheinhas que ainda arrancam assobios descarados quando passam em frente às construções. O sucesso é garantido.

[ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: