* Não consigo sair da ficção. Depois de uma longa jornada olhando para o mundo através dos fatos, cada vez mais crio fatos para olhar para o mundo. Será sintoma de um distanciamento da notícia?Será falta de vontade de tentar fazer análises diretas sobre determinado assunto?Não sei. Só espero voltar a escrever “de verdade” em breve.Enquanto isso só a ficção me suporta...
Fragmento Urbano VII
ª era um garotinho educado que adorava dormir. Todos os dias ª não via a hora de dar sono pra ele deitar e ver tudo o que ele não via durante o dia. ª via a porta que ele batia a cabeça, via o tapete que ele escorregava e o copo de leite que derramava. Mas quando ª dormia não derrubava nem escorregava. Ele era forte e alegre o dia todo. Saía de casa distribuindo bom dia e sempre ajudava uma velhinha a atravessar a rua. Ah, como ª era feliz quando dormia! Lembrava de tudo o que fez na vida até o dia em que ficou cego por causa de um médico filadaputa, segundo seu pai, e por causa de Deus, segundo sua mãe. Para ele isso não importava. O que importava mesmo era dormir. Como dormia esse ª! Com o tempo, ª começou a crescer, mas seus sonhos começaram a diminuir. Os atos do herói bondoso ficaram chatos e monótonos. Já não tinha mais graça apenas sair de casa dando bom dia pras pessoas. Daí ª começou a ficar quieto, quieto. Nem sozinho falava mais. Foi assim durante muito tempo. Até ª resolver sair de casa. Os pais de ª o procuram até hoje. Agora são eles que não vêem a hora de dormir para sonhar com ª .
Pensava o dia todo em se matar. Esquecia quando já era tarde. Perdia o ânimo e a coragem de se ver morto. O que diriam os vizinhos? E se não morresse e tivesse que limpar o próprio sangue no dia seguinte?A imagem do próprio corpo o amedrontava. Mas não tinha volta. “Desta semana não passa”. Para dormir, remédios. Para acordar, o sol. Nem chorar conseguia. Estava vazio. O telefone não tocava há dias. A porta não se abria há semanas. “Se morrer ninguém vai perceber”. Sem arma, sem prédio, sem corda. O que fazer então? Saiu às ruas gritando “mate-me, por favor”. Insistia. Provoca a todos. Ninguém lhe dava atenção. “Nem para morrer eu sirvo”. Lembrou então da ferrovia. Abandonada e enferrujada como ele. Mas ainda tinha destino, ele não. Despiu-se. Deitou-se nos trilhos por horas sem que ninguém notasse. Cansou. Na havia mais trens. Não haveria mais morte.
Fragmento urbano V
Abriu a garrafa enquanto a cotação da Down Jones apontava uma queda histórica. No exato momento do primeiro gole, a febre aftosa descia goela abaixo dos pecuaristas do norte. Ao arroto satisfeito do brinde desfeito no bar da esquina, uma quina acumulada maculava os transeuntes a sua volta. Desceu o copo, a inflação subiu. Encheu e bebericou novamente a espuma branca com carinho sem pensar nos colarinhos brancos que apareciam na TV. Levantou o dedo, pediu mais uma. Garçom, abridor, serve-se da glória da indiferença. Enche o copo, levanta-o até a boca, sorri. Nada a se pensar. Fome. Amendoim. Assobio reconhecido no balcão. No barracão da frente, carros e carros são comidos com gosto pra salgar a vida. Desmanche. Foda-se. A cerveja te levanta ao banheiro. Urina a alma deslavada de anônimo. Balança a culpa sem lavar as mãos. Volta ao balcão. Agora Futebol. Sorri novamente. Plantão irrita-o. Política driblando o fim de semana. Caralho. Só queria paz. Volta pra casa com a sensação de trabalho bem feito. Banho. Cama. A geladeira vazia. Desânimo. Lembra da tia sergipana que comia pão com farinha. Sorri. Não era pra tanto. Mas estava quase comendo o pão que o diabo lhe deu de presente ao meio dia de um dia meio sem graça que resolveu ia ao bar beber pra bater a saudade de porre. No Ibope os gráficos. Não entendia os números. Nem precisava. Iria anular seu voto sem perceber. Na segunda não teria folga. Trabalharia com este ou aquele presidente. Iria ao bar com este ou aquele programa de governo. Lembrou do circo e do tiro de guerra ao mesmo tempo. Sentiu-se palhaço. Ficou triste. Pediu mais uma porque a vida continuaria independente dele.
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