Fragmento Urbano VIII
O superintendente estava ansioso com a visita do representante gringo. Iria bajulá-lo, seduzi-lo até conseguir fechar o negócio. Na sua casa, a esposa reclamava da demora e suspeitava que esse “gringo” fosse, na verdade, uma vadia qualquer. E enquanto reclamava do marido, dava seus prolixos toques de boa conduta à empregada. A empregada, sem dinheiro para ir embora, reclamava sozinha da patroa.
O super... chegou em casa puto com o ato falho que cometera na reunião. A esposa, puta, ficou mais puta ainda com a grosseira e indiferença do marido. A empregada, que não tinha nada a ver com o gringo, nem com a desconfiança da mulher, criava coragem pra pedir “dois pardais” pra pegar o ônibus.
“Dá licença patrão”. “Fala”. “O senhor tem dois real pra arrumar pra mim?”. “Eu já não te paguei segunda?” “Não senhor”. “Como Não?”. “Cadê o dinheiro dela?” A mulher, que até agora não tinha dito nada, começou a reclamar do serviço da empregada que, agora quieta, ouvia o marido defendê-la porque já tinha deixado o seu salário com a mulher que não havia pagado sabe-se lá por que.
A empregada, cansada de esperar, anuncia que vai embora e “que amanhã passa pra receber”. O marido, com quilos de roupa pra lavar, fala pra mulher lavar a roupa dele se a empregada for embora. A mulher ameaça não pagar a empregada que assusta e volta atrás na decisão de ir embora. O marido xinga a esposa e sai de casa. A empregada, sem passe e sem salário, volta à lavanderia. A mulher, sem marido, saboreia um suculento sorvete enquanto chora em frente a TV.
Vende-se caráter por poucas moedas
Ideologia? O que é ideologia? É ter que se submeter aos caprichos do chefe para ter como pagar o aluguel no fim do mês ou é sair às ruas gritando palavras de ordem contra a morte de um ursinho panda do outro lado do mundo? Ideal? Ideal é o salário em dia que sustente seus desejos de consumo ou é o norte condutor de seu dia-a-dia?
Estou preste a abrir mão de tudo o que sempre quis por em prática, de tudo que relutei em entregar de mão beijada, por um salário melhor. Não há campo de trabalho para quem apenas sonha. E não há como trabalhar simplesmente por ideologia ou ideal. Comigo não dá mais. Preciso de dinheiro. Preciso ter ao menos alguns bons momentos de estabilidade. Por que não arrisca alguma coisa? dirão alguns. Não dá. Cansei de esperar. Não tenho currículo suficiente para impor alguma coisa.
Se conseguir este novo trabalho, não haverá mais volta. Serei posto em observação permanente e este blog será meu único ponto de vista autônomo. Se não conseguir, continuarei duro e submisso. E não adianta chorar. Pus porque quis meu caráter a venda. Resta saber se haverá, como diz meu chapa Genésio, uns 10 pilas pra tomar uma birita no fim de semana.
Finado Dia de Finados (sem choro nem vela)
Finados. Data fúnebre de memória in memorian. Feriado nacional para os vivos, dia de trabalho para os mortos. Não se sabe ao certo o que comemorar, mas nem precisa. Comemoramos o “incomemorável” há tempos. Já se foi o 7 o 22 e lá vem o 15. Tem semana santa só está faltando semana humana, pois o resto do ano tem se mostrado desumano. E lá vem o natal anunciado no comercial como a data principal. Coitado dos umbandas sem demanda de fiel foram postos na ciranda ao som de jingle bell. Ah, mas o finado feriado é diferente. Não se obriga a estar contente apesar de muitos nem sequer lembrarem dos que já foram gente. É perdoável. O cemitério semi-estéril guarda vivo a memória existente. Não, nem só de humanos vive o silêncio dos mortos. As almas penadas penumbram paradas por pânico aos vivos. Querem dormir. E lá vamos nós com nossas novas vidas negociar com os mortos a memória mal vivida.
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