Fragmento urbano XI

 

“Vai, tira a roupa logo que eu não tenho muito tempo”, disse o menino assim que a viúva abriu a porta. Moleque de pouca idade, rosto de pré-adolescente num corpo quase de criança. Mas era o suficiente para fazer aquela mulher que há pouco velou o marido jamais voltar a pensar em casamento. O moleque tinha a malícia que ela precisava para se sentir jovem como ele. Fazia-a mulher. Transava uma, duas, três vezes sem interrupções. “Ô fogo que tu tem, garoto!”. Passavam tardes inteiras trancafiados no quarto. Ela bebendo rabo de galo; ele refrigerante. Eram práticos como dois sócios de fins distintos. Só o meio era o mesmo. O sexo para ela era o requinte resgatado de uma vida passada. O sexo para ele era o requinte projetado de uma vida futura. Não conversavam sobre isso. Se despiam e se comiam. Os diálogos se limitavam aos gritos e sussurros. Desde o dia em que ela o viu jogando bola em frente à sua casa a única conversa séria que tiveram foi os pequenos acertos da oferta de trabalho. O moleque pensava em cinquentão, mas ela o deu mais. “100, duas vezes por semana”. E foi assim durante anos. Ela com sua pensão. Ele com seu fôlego. 

Fragmento urbano X

 

Jesus foi para a entrevista do emprego com a mesma camisa da entrevista anterior. Olhou no espelho e agradeceu alguma coisa que não sabia o que era. “Uma oportunidade dessa e gente tem que dar valor”. Jesus, embora não desse a mínima para superstições, resolveu passar na mesma padaria da entrevista anterior. Sem notar, o Jé, nomenclatura autoproclamada para diferenciar-se do xará famoso, seguiu o mesmo caminho da entrevista anterior. Chegou na empresa penteado e perfumado como nas festas de fim de ano. Disse “graças a deus” e “deus lhe pague” também sem perceber. Fora isso, disse as mesmas coisas da entrevista anterior e, como da última vez, não conseguiu o emprego. Mesmo assim foi embora divinamente tranqüilo. Em casa, sozinho, fez um café bem forte, sem açúcar e dividiu com um santo todo empoeirado que ficava escondido no armário. Tirou as teias que o escondiam. “Vai que dá sorte da próxima vez”. 

 

Fragmento urbano IX

Um dia desses, Seo Neno resolveu arrumar o jardim de casa. Esqueceu as habituais caminhadas e trocou os cultos pela manhã por horas diárias cultivando sua flora particular. Regava flores, remexia a terra, plantava frutos. Não sairia do quintal, dizia, antes de deixar aquele lugar exatamente como estava há muito tempo. Passava noites a fio assoviando entre suas orquídeas, bromélias e roseiras enquanto cuidava de cada detalhe. Antes de ir embora, regou pela última vez cada vaso enrustido e sorriu. Jamais voltaria a ver aquelas plantas.

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