Fragmento urbano XII

 

“Não”. Foi a última coisa que ele ouviu antes de cortar os pulsos. Foi o “não” mais abusivo que alguém poderia pronunciar. E ela pronunciou. Pronunciaria quantas vezes fosse necessário. Um não por tudo o que ele não fez. Um não por ele não ter sido nada além de cifras. Sim, foi um não convicto. Um não afirmado com minúcia, perícia e frieza. Mas ele sabia que cortar os pulsos, além de não a trazer de volta, também não o mataria. Mas ele o fez. E fez porque não agüentou o peso do não pronunciado por aqueles lábios desenhados, milimétricos. Já havia planejado tudo antes do não. Já havia marcado tudo, comprado tudo para o sim e mesmo assim ela disse não. Nem o seu dinheiro a convenceu. Nem sua promessa de futuro a converteu. Era não e pronto. Passou a rastejar sobre a sombra da negação daquela mulher. Oferecia tudo, mandava presentes, flores, cafés da manhã. E nada. Ela não mudaria o não, estava irremediavelmente decidida a permanecer com o que dissera anteriormente. “Por que não?”. “Porque não”. Cortou os pulsos mais um ou duas vezes, tomou remédios, virou alcoólatra. E o não permanecia. “O que você quer que eu faça para dizer sim?”. “Nada. Você simplesmente não merece um sim. Não de mim”. Desistiu. Conseguiu outros “sins” durante a vida, mas aquele não o perturbou até a hora do último sim que não ouviu.

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