Sempre derrubava algo embaixo da mesa para poder olhar os pés femininos que se escondiam sob as toalhas. Ficava admirado com aquela sutil nudez, aquela miudeza com que cada pezinho se apresentava em público. Para ele, nem as minissaias, nem os decotes recortados chamavam tanta a atenção quanto um par de pés tamanhos médio pintados com esmaltes vermelhos. Não suportava mulheres com pés judiados, maltratados e malfeitos. Trocava qualquer fantasia por um simples esfregão de dedos em seu rosto. Com o tempo passou a dar preferências exclusivas para a anatomia dos pés. Não ligava para olhos, bocas, pernas, seios. Na primeira vez que a levou ao motel, a fez despir somente as sandálias e levantar os pés para o alto enquanto se masturbava olhando apenas para os seus pés. Nas primeiras vezes ela entregou-se, cega, para os desejos do estranho amante que apenas a observava. Depois foi querendo participar, dar a ele muito mais do que pés balançando no ar. Mas ele não queria. Quando não observava, o máximo que fazia era tocar ou dar pequenos beijos até o tornozelo. O resto do corpo dela era intocável. Nem nus chagavam a ficar. Mas ela cansou. Queria um homem que a penetrasse, que também a fizesse gozar. Em pouco tempo o trocou por um “homem de verdade”. Mas ele não suportava vê-la com outro. Sentava sempre próximo para tentar ainda ver “os pés mais lindos que Deus já pôde fazer”. Mas ela passou a usar tênis, sapatos fechados, pois não suportava mais aqueles olhos fixados sobre os seus calcanhares. Passou a persegui-la, pedir para tocar em seus dedos pela última vez. Ela recusava, chamava-o de louco. Ele chorava, rastejava para vê-los. A situação ficou perturbadora. Não podia ir a nenhum lugar que o encontrava. A perseguição a fez abandonar de vez as sandálias, os esmaltes, as cutículas. Não faria nada que pudesse agradá-lo. Mas ele insistiu tanto que ela aceitou tirar os tênis para que ele pudesse ver os seus pés e nunca mais aparecer. “Prometo que nunca mais te procuro”. Ela tirou. Ele, ao ver aquele relaxo evidente, não suportou o choque e fincou-lhes árduas mordidas de ódio. Nem os chutes certeiros dela impediram que ele mutilasse dois ou mais dedos de cada pé antes de jogá-la sobre o asfalto e espancá-la até a morte.
O primeiro a chegar é o Zulu, exímio pandeirista e da trupe do Improviso. Na seqüência vem o Fião, Pajé, Carlão, Larica e o Goela. Todos com sobrenomes oriundos de suas funções musicais. Chegavam mansos, cada um na sua, cumprimentavam-se e em poucos minutos a orquestra proletária dos pinguços inebriava a aura dos poucos gatos pingados que por ali estavam. “Dexa eu tocá, pai”. O moleque do Goela não dava sossego pra banda. Queria de qualquer maneira fazer parte daquela roda de malandros. O Gogozinho via de tudo, mas era de confiança. Até segurou a porta do banheiro feminino quando seu pai entrou lá com “dois estranhos”. Ficou com uma vontade de perguntar por que eles saíram falando pelos cotovelos e bebendo o dobro do que tinham bebido até então. Também já mentiu pra mãe o dia em o Goela entrou no carro com uma vadia conhecida do bairro. A cena foi vista por pelo menos cinco amigas diretas da mulher do Goela, mas o Gogozinho negou, então era mentira. Queria ser malandro igual o pai. Trabalhar de noite, num lugar que ninguém pode saber onde fica. Trazer dois frangos de fim de semana pra casa. Beber muito e não ficar bêbado. Ser o rei dos botecos por onde passar. “Um dia eu vou ser Goela”. E o samba esquentava todo domingo lá no Improviso. Passado o tempo das brigas memoráveis, as mulheres puderam voltar ao bar. Mas só mulheres solteiras, “pra não zicar de novo”. Foi o Zulu que indiretamente colocou o Gogozinho na roda. Chegava cedo, o moleque chegava junto. Goela vinha depois. Zulu punha o pandeiro na mão dele, ensinava os movimentos, os toques mais básicos. E como Gogozinho ficava contente em sentar naquela roda, mesmo vazia. Foi pegando jeito, batucando na mesa. Até nos intervalos arriscava umas palmadas no instrumento. Goela ficava enciumado.”Larga de pandeiro filho”. Você vai ser puxador igual seu pai”. A mulherada vai se render ao seu gogó”. Gogozinho não falava nada pra não magoá-lo, mas já se via arrepiando no pandeiro enquanto o pai cantava. E foi aprimorando, melhorando a cada dia. Até conseguiu o pandeiro emprestado do Zulu por uns dias. “Toma cuidado hein moleque”. “Podexá”. “Treina bastante que eu deixo você tocar uma música no domingo”. E assim foi. Gogozinho esqueceu de vez o potencial vocálico e aprimorou batucadas até calejar a mão. “Domingo vai ser foda”. O pai, que nunca tinha sequer deixado Gogozinho falar no microfone, continuava prometendo o estrelato para o filho.“Larga de pandeiro. Seu negócio é puxador“. Mas o moleque insistiu e no domingo combinado chegou antes mesmo do Zulu. Na primeira hora de samba, o moleque ficou atrás da roda, só levando cerveja e olhando os instrumentos enquanto os músicos iam ao banheiro. Já arriscava uma olhada de canto para as mulheres, vinte, trinta anos mais velhas que ele. “Só pra testar a reação”. Os caras voltaram, tocaram mais uma hora, uma hora e meia e nada do Zulu deixar ele tocar. Gogozinho, então, ouve perplexo o anúncio da saideira.”Ô Zulu, você não vai me dexá tocá?”. “Eh, mininão, você nasceu pra ser puxador. Larga esse negócio de pandeiro”. Foi a morte do samba para o Gogozinho.
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