Fiquei quase duas horas olhando para o envelope sem coragem de abri-lo. Sabia que o resultado não seria outro, mas temia as conseqüências que a confirmação me traria. Por incrível que pareça, estou calmo. Preparado para o pior. Minha preocupação é com você, que está numa evolução incrível mundo afora e a única coisa que penso é em não interromper sua trajetória de sucesso. Continue assim. Você não sabe como é difícil dizer isso, mas peço que você me esqueça por enquanto. Pelo menos até eu me acostumar com a idéia de ter você me queimando por dentro sem eu perceber. Procure outro homem ou outra mulher pra sua guinada sem fim. Ah, e não me responda. Preciso ficar sozinho, mesmo sabendo que você estará para sempre dentro de mim. Até a morte...
Sua vítima
O risinho irônico de nossa juventude
Náusea. A pipoca dá lugar às unhas. Aflição. Descontentamento. Vontade de dar stop e dizer “estúpidos” os três personagens que compõem o tom da narrativa crua, verossímil, documental. Assisti Cama de Gato ontem. Tenho que admitir que a falta de “perfumaria” incomoda um pouco. As câmeras tremem, o áudio dá ecos, os atores, com exceção de Caio Blat, pecam por quererem “atuar” num filme em que o chavão luz, câmera, ação não deveria ser percebido.
Mas isso é supérfluo perto do que Cama de Gato proporciona aos nossos mais diversos questionamentos. Aliás, por que três rapazes classes médias chegaram ao extremo da inadimplência ética, moral e, sobretudo, religiosa? Religião no sentido de parâmetros, mas também no sentido de penitência, culpa, limites. Muitos jovens certamente se viram na tela. Riram sutilmente por não ter acontecido com eles ou por ter “graças a deus” desistido de algo semelhante pelo menos uma vez na vida. Quem assistiu deve estar pensando, como pode alguém legitimar os atos de três delinqüentes como mera conseqüência dos extremismos da juventude?O próprio filme responde ao colocar antes e depois da história depoimentos espontâneos e reais de muitos jovens. Quando não dizem coisas piores, afirmam a possibilidade de fazer, no mínimo, semelhante. É claro que agir sob conseqüências traumáticas não explica muita coisa sobre nós, seres inconstantes, passionais.
Cama de Gato, como bem mencionou Contardo Calligaris, é uma mistura de Kids com Bruxa de Blair, mas muito superior aos dois. Em relação ao primeiro, no qual a juventude também é o foco, supera pela anti-glamourização que proporciona. Em relação ao “caseiro” Bruxa de Blair, a única semelhança é a falta do pragmatismo cinematográfico, da inquietação ótica que provocam aqueles enquadramentos trêmulos, tomadas em ambientes escuros, fala cortada dos personagens.
Não dá para indicar Cama de Gato sem propósitos. Não dá para simplesmente gostar de Cama de Gato sem pensar nesses propósitos. É um filme raro, tanto por suas qualidades, quanto por seus “defeitos”. Agora, quem acredita que cinema deve ser uma experiência meramente passiva, é melhor nem gastar o sofá para os 90 minutos em que o televisor se transformará inevitavelmente num incômodo espelho.
Lembro que tinha ouvido meu avô dizer “supermercado” para minha mãe. Eu era pequeno, mas sabia que aquele não era o caminho certo. Andamos muito mais do que precisava para chegar ao mercadinho. O meu avô tinha prometido me comprar um doce e isso foi o suficiente para eu não desconfiar dele. Fui quietinho no banco de trás. Ele, quieto no banco da frente. Depois de algum tempo, finalmente paramos o carro numa rua estreita, sem asfalto, quase desértica. Havia apenas uns homens estranhos passando. “Não conta nada pra sua mãe, que eu te dou o que você quiser depois”. “Tá”. Agarrei a mão dele com muita força e segui em frente. Entramos num corredorzinho escuro que perdia o silêncio a cada passo andado por nós dois. “Isso aqui não é o supermercado do Tadeu”. Quase arrisquei perguntar onde estávamos entrando, mas resolvi ficar quieto. Lembrei dos doces, das balas que ganharia mais tarde. Ao fim do corredor, o silêncio já havia sido tomado por um batalhão de gritos. “Aperta”. “Bica ele”. Prensa ele no canto”. “Que franga é essa”. Meu avô só soltou da minha mão quando foi solicitado a dizer o valor das apostas. Tirou a carteira e deu quase todo o dinheiro que tinha para o barbudo que ficava passando e pegando o dinheiro. Devia ser importante, pensava eu. Lembro de ter visto minha mãe entregar aquelas notas para ele antes de sairmos. “O vô, o dinheiro não é pro leite?”. “O dinheiro do leite tá guardado, filho. Não fala nada pra sua mãe”. Lembrei dos doces, das balas que ganharia mais tarde. Fiquei quieto. Meu avô gritava em frente uma roda de madeira que eu mal conseguia enxergar. Só ouvia os gritos dos homens que cercavam aquele lugar. Vez ou outra, voava umas gotas de sangue bem miúdas, mas eu não me importava. Estava extasiado com aquela cena. Me sentia adulto no meio daqueles homens, embora não conseguisse ver o que estava dentro daquela roda. Minha curiosidade aumentava. Mau avô sorria para mim. “Vou te dar um presentão, meu filho”. “Deixa eu ver, vô. Deixa”. “Calma, filho, calma que a gente já vai embora”. Não queria mais embora. Queria gritar, sorrir, xingar como eles. O barbudo do dinheiro passou de novo. Meu avô tirou o restante do bolso.”E pro leite, vô?”. “Calma, peste. O dinheiro do leite tá guardado”. “Deixa eu ver, deixa eu ver”. E nada. Tentei puxar um caixote que havia ao lado da cerca que cobria minha visão. Não enxergava ainda. Faltava pouco, mas não enxergava. Não podia mais suportar aquilo. O homem barbudo passou de novo. Meu avô, sem mais nada no bolso. Cara de bravo, tentava negociar com o barba. Tenta emprestar de um de outro e nada.“Vamos embora, filho”. “Não, eu tenho uns trocados aqui.Minha mãe me deu pra eu comprar um doce. Dá lá pro barbudo que eu quero ver o que tem aí”. Meu avô me olhou ressabiado. Me observou por longos 15 segundos. Pegou as poucas notas que eu tinha e entregou ao barbudo. Sem dizer nada, me pegou pelos sovacos e me pôs em seus ombros. “O nosso galo é aquele ali filho, o da esquerda. Se ele ganhar agora, vou te dar um presentão”. Mas eu já não conseguia pensar nos doces, nas balas que ganharia mais tarde.
O mundo cru de um José incomum
José Celso Martinez Correa não é normal. Ainda bem. Suas opiniões excêntricas poderiam soar idiossincráticas se não viessem de um “ser” que usa categoricamente a palavra “experimentalismo”. Tudo que diz gira em torno do que já fez e não do que acha que deveria ser feito. A entrevista que o diretor do teatro Oficina concedeu a Playboy foi de uma sinceridade absurda, com opiniões sutis, simples, sobre temas delicados e “perigosos”. Zé Celso falou de sua homossexualidade, de mulheres, de drogas, política, Maluf, Silvio Santos.Ah, e um pouco de teatro também. Até quando diz que se apaixonou diversas vezes por amigos seus a frase soa corriqueira, sem impacto. E mais. Quem da sua classe teria coragem de admitir que “foi salvo pelo caixa 2 do Maluf” ?.
Se fosse o Marcelo D2 que dissesse que fuma maconha há 50 anos e que a erva é um vaso dilatador extraordinário, certamente haveria muita polêmica sobre. Mas se tratando de Zé Celso, é quase como dizer que tomar chá de camomila todas as manhãs é legal. Sem contar as orgias com ácido que diz ter realizado.
José Celso Martinez Correa não é normal. Ainda bem. Porque longe das conveniências declaratórias de muitos que se preparam ou se amedrontam em frente aos jornalistas, ele não teve pudor em dizer não só o que pensa, mas o que fez, faz e pretende fazer.
“Gosto Muito de transar com quem trabalho. Os critérios para a escolha dos atores são libidinosos”.
“Dinheiro de ladrão é de todo mundo”
“O governo Lula desmistificou a democracia da propina”
“Na época da ditadura eu traficava LSD para sobreviver”
“Peço para os atores tomarem (ácido). A origem do teatro, o grego, é muito ligada à alucinação”.
“Queria virar uma farofa (...)Adoraria ser comido”.
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