Fragmento Urbano XVIII
Dia chuvoso. Os pingos incomodam como cuspes aterrissando na testa. Sem capa de chuva, cigarro na mão esquerda, passe na mão direita. Sempre o primeiro a chegar. Bom dia. Bom dia. Gira Catraca. Sento no primeiro banco no lado oposto do motorista. Bom dia. Bom dia. Gira Catraca. As pessoas começam a ocupar as poltronas vazias. Não há estofado em nenhuma. Pior em pé. Bom dia. Bom dia. Gira Catraca. Baaaala, chiclete, refriiiiiiiiigerante. Onde fica o Hospital dos Olhos?Esse aqui passa na Barão de Tatuí?. Logo cedo. Não quero falar com ninguém. Ninguém quer. Falar o que, logo cedo? Mas há vozes. Devem estar testemunhando a nuca do próximo. Bom dia. Bom dia. Gira catraca. Não há mais poltronas vazias. Agora é o apoio metálico sobre as cabeças que são disputados a dedo. Torço pra nenhum velinho parar em pé na minha frente. Dois desce. Um sobe. Próximo ponto. Cinco sobe. Nenhum desce. Cheiro de sovaco. Flatulências. Não há mais poltronas nem apoio metálico. Mas o equilíbrio é maior do que nunca. Ninguém se move. Bom dia. Bom dia. Gira Catraca. Bom dia. Bom dia. Gira Catraca. Como é mesmo aquela palavra? Tento lembrar, não consigo. É tanto bom dia e o som da catraca girando que eu me desconcentro. Sinalizo para descer. Como é mesmo aquela palavra? Preciso lembrar. Pragmatismo. Era isso. Ouvi um dia no Provocações. Pragmatismo. Lembro dela toda vez que entrava no ônibus. Talvez tenha a ver com o som da catraca girando e os milhares de bom dia que ouço todos dias.
Fragmento urbano XVII
A equipe do refeitório estava ansiosa. A cozinha seria inspecionada por uma “supervisora que estudou fora e trabalhou nos melhores restaurantes da capital”. Todas estavam atentas a um mísero fio de cabelo que pudesse ser encontrado pela mulher que as visitaria naquela manhã.”Dizem que ela costuma colocar coisas na comida enquanto a gente tá distraída”. “Lá onde eu trabalhei ela cismou com o cabelo crespo da nossa chefe e a fez passar chapinha”. “Mas aqui ela não vai achar nada. Vai procurar, procurar e só vai encontrar limpeza e higiene”. A mulher que aguardavam com expectativa, enfim, chega ao restaurante. As cozinheiras, auxiliares e copeiras ficam apreensivas. “Quero só a superior de vocês comigo”. Elas obedeceram silenciosamente. Ninguém nem ousou dar uma espiada para trás. Olhar tirano, postura ereta quase alinhada à posição de seu nariz empinado. “Hum, Ok; Ok; Ok. Levanta essa tampa. Isso. Agora abra todas essas gavetas. Não ouviu o que disse? Gavetas e não prateleiras”. Anotava uma coisa ou outra, mas não conseguia encontrar alguma irregularidade de fato. Já estava cruzando a porta quando, de repente, fixou o passo.”Algum problema, senhora?”. “Hum,esse cheiro é de cebola?”. “Si, si, sim...por que?”. A insegurança da chefe de cozinha apimentou os olhos, avermelhou as bochechas da visitante técnica. A tranqüilidade do início deu lugar a uma sucessão de gritos agora compreensíveis às mulheres que tentavam até então ler os lábios dela sem sucesso. “Cebola?. Vocês usam cebola no tempero? Não me digam que na salada também há cebola? E no molho de tomate? Não é possível! Não acredito no que estou ouvindo!!”. A outra mulher não sabia o que dizer, afinal, o que havia de errado em colocar cebolas nos temperos. Tentava explicar, mas era interrompida por árduos gritos de negação à cebola. “Po, po, posso saber qual é o problema com a cebola, minha senhora?”. “O que? Uma cebola nunca te fez chorar?Hein, me diga se uma cebola já te fez chorar?Pois agora ela vai te fazer chorar de verdade”. Pegou o molho quente que havia ao seu lado e arremessou contra a cozinheira-chefe que gritava de dores e logo se pôs a chorar o molho derramado sobre sua face. Mal conseguia dizer que sequer havia sal, muito menos cebola, naquele molho.
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