Fragmento urbano XXI
“Vai logo, amor. Dependendo do trânsito, a gente não chega a tempo”. “Tá, tá. Já to indo”. Saíram apressados. Ele acertando o nó da gravata; ela passando sombra nos olhos. Sorte. Não havia trânsito. Deslizavam livres pelas ruas do centro. Let’s spend the night together nos falantes. Pararam num posto. Ele desceu, comprou cigarros e vinho. Ela continuava a se maquiar. “Estamos quase chegando”. O vinho no gargalo ia dando o tom da noite. Quase bêbados, trocavam algumas carícias sutis. “Pega a capinha do CD que tá no porta-luva, amor”. Em poucos segundos, duas linhas brancas sumiram em sua narina. “Vai, sua vez”. Ela enrola a nota já com o carro em movimento. No som, agora toca Cristal Ship. Os dois se interrompem na tentativa de falar tudo o que não falavam em dias normais. “É ali”. “Espera um pouco, trouxe uma bala pra ficar melhor”. Estacionam o carro. Últimos retoques. Coração saindo pela boca. Dão um longo beijo. Se abraçam. De mãos dadas, entram na casa e se despedem. “Tchau”. “Tchau”. 5 da manhã. Sentado na calçada, ele a esperava ansioso. Dava uns goles numa latinha quente e fumava. Ela sai da casa, meio desarrumada, mas de banho tomado. “E aí, como ele era?”. “Prometemos não perguntar isso, lembra?”. De mãos dadas, os dois voltam ao carro e, quase lúcidos, vão embora sem dizer uma palavra.
A feiúra da panfletagem artística
Não fui à Bienal. Não tive tempo. Arnaldo Jabor foi e não gostou. Disse que perdeu seu tempo vendo “perigosas instalações que têm vergonha de provocar sentimentos de prazer”. Talvez, usando o princípio que põe em lados opostos forma e conteúdo, a Bienal deste ano tenha sido parecida com a anterior, da qual presenciei. Há quatro anos, espalhados pelo pavilhão do Ibirapuera não havia nada ortodoxo, apenas construções que colocavam técnicas de criação como pano de fundo para impor algum discurso. Havia, sim, muito “realismo” inserido naquelas espécies estranhas de manifestações, mas a fixação em propor algum tipo de reflexão, algum tipo de engajamento que nos faça pensar nos temas que a vida nos insere longe das galerias, tem mais a ver com o criador do que a criação, pois, como diz Jabor, “o artista quer virar obra de arte”.
Jabor condena esta ânsia de criar algo que choque acima de qualquer beleza artística. Do discurso acima da exaltação visual que uma obra possa nos causar. Ora, há quatro anos vi coisas belas que não propunham nada e nem por isso deixei de atribuí-las algum significado. Mas quando Jabor fala em beleza, não é a primeira coisa que me faz lembrar da bienal. Concordo quando ele diz que a arte precisa buscar a transcendência, sem desistir da criação como esperança e vitalidade. Mas confesso que não consigo deixar de atribuir objetividades às manifestações artísticas. Afinal, o que há de errado em tentar exprimir algo de questionador a um trabalho que será exposto num dos maiores eventos do gênero?
O problema está justamente aí: nesta fúria de levantar bandeiras. Não há meio termo. É panfletagem política e pronto. Alguns artistas contemporâneos se comportam como políticos que não sabem nada de arte. Pegam seus canetões e suas cartolinas e saem por aí pregando cartazes com “FODA-SE” e se dizendo modernos, engajados. Não, arte realmente não é isso. E convenhamos. Poucos são os artistas que conseguem se preservar dos holofotes, sem que sua arte se pareça secundária. É o caso do inglês Banksy (www.banksy.co.uk) que se recusa a se integrar (e entregar) ao mundo que tanto condena. Também há o brasileiro Alexandre Orion (www.alexandreorion.com.br) que consegue mesclar stencil, fotografia e (quem diria) um crítica de forma sutil, sem palanques.
Mas um dia eles também estarão em bienais. Resta torcer para que continuem marginais da arte sem pretensões políticas, sem a feiúra panfletária de outros artistas.
Fragmento urbano XX
“Padre?”. “Padre”. O homem que deflorou quase todas as meninas da cidade decidiu por seu sêmen na clausura divina da Universal. A medida teve efeito contrário. As mulheres o desejavam mais e mais. Queriam-no em todos os lugares. No confessionário, nas missas, cerimônias, padarias, farmácias e, principalmente, na comunhão. Era no ato do mergulho da hóstia que a libido feminina fluía pela casa de Deus. Elas o amavam como santo, mas o preferiam como profano. Homem do mundo. Era santo na cama, não ali inútil servindo ninguém de carne e osso. Ele resistia. “Nem uma punhetinha padre?”. “Olha o respeito!! Três ave-marias, já”. Os plantões à porta da Igreja aumentavam. Duas, três mulheres fingiam estar ali por diferentes motivos, mas no fundo sabiam da temida concorrência. Mas ele passava invulnerável diante dos decotes, das pernas torneadas, dos olhares sedentos de sexo que o aguardavam todos os dias. Resistiu meses até ser posto finalmente no altar por todas. O dia de sua consagração como santo foi um desses fatos quase impensáveis longe da literatura. Mas ocorreu. Muitas eram as testemunhas. Talvez 20 ou mais mulheres, num ato impensado, agiram pelo impulso da carne, brigando pela posse daquela propriedade humana. Ele, num esforço tremendo para preservar o livro sagrado em mãos, não pôde evitar o esquartejamento do que de mais sagrado havia em seu corpo antes de se tornar padre.
Fragmento urbano XIX
Seja você mesmo. Faça o seu dia feliz. Leve uma vida leve. Porque você merece mais. Entre um ponto e outro da Washington Luis, ele foi atingido por nada menos do que 20 mensagens enormes sobrepostas a belos rostos também enormes, como que dizendo “é com você aí que eu estou falando”. Ele usava como lema outras mensagens, mas retribuia o sorriso oferecido. Era inevitável. Estavam ali para serem respondidos. O problema é que as mensagens, embora fossem verdadeiras, não exprimiam exatamente o que ele sentia. Mas não. Era daquela forma exposta nos cartazes que ele deveria agir. Por isso ria. Por concordar e discordar ao mesmo tempo. Às vezes esquecia das mensagens para se atentar às lindas mulheres que ilustravam os “autidores”. Os olhos delas fixavam-se aos dele quando se encontravam. “Um dia alguém bate o carro por sua causa”. Aliás,dia desses, ele sem perceber levou para casa uma de suas deusas com suas mensagens otimistas. Ela enfeitava um descascador de laranjas elétrico. A mulher, linda na embalagem, lhe dava o mesmo sorriso da Washington Luis. E a mensagem também era a mesma. "Sua vida merece praticidade". Ele nunca achou descascar laranjas com facas algo complicado. Também nunca achou que precisaria trocar as facas por um moderno descascador de laranjas elétrico. Por isso nunca o abriu. Para não ter que jogar fora o belo sorriso da embalagem.
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