Ia tecer algum comentário, mas desisti. Este tipo de paradigma elitista merece ser lido apenas para pegar nojo. Marketing da pior espécie. Quem já andou pela Oscar Freire entenderá a essência da frase. Abaixo, o infeliz informe publicitário da Associação dos Lojistas da Rua Oscar Freire, anunciando o fim das reformas.
“No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os sentidos”.
Fragmento urbano XXII
Tec. Tec. Não funcionou. Havia balas, mas não funcionou. “Tenta você”. Tec. Tec. Tec. Tec. A arma engasgara na boca de ambos. Os dentes rangeram sobre o cano curto do 22, mas a bala recusara-se a sair. Os dois voltaram para a cama. Pensavam em outras hipóteses para conter a frustração. “E se a gente tomar remédio?”. “Não vai adiantar”. Pensavam. Com o queixo apoiado sobre uma das mãos, ele não dizia nada. A menina, impaciente, circulava pelo quarto de hotel em busca de inspiração. Logo cansou e pôs-se a pensar parada, na outra extremidade da cama. No espaço entre os dois, a arma reluzia um brilho fúnebre, atraindo a atenção dos dois. Pensavam, mudos e intactos. Apenas um tique nervoso do rapaz quebrava o silêncio. Tinha a mania de cravar o polegar nos outros dedos na tentativa de encontrar a carne por debaixo das unhas. Ela, mesmo aparentando inquietação, não se movia. Passaram duas ou mais horas sem sequer olhar um para o outro. Apenas alguns soslaios os lembravam que dividiam o mesmo espaço. “Acho que vou desistir”. “De jeito nenhum!. Não te trouxe até aqui para desistir. Vamos até o fim”. A menina não conseguia deixar de pensar na família. O rapaz só pensava no dia seguinte. Haviam combinado o ato poucos dias antes, sóbrios e convictos. Mas o ato falho da arma de fogo trouxe à tona uma maré de reflexão, e isso incomodava. Queriam seguir em frente, embora aquele tempo todo trancafiado num pequeno quarto incomodasse tanto quanto uma bala penetrando os miolos. “Vou tentar de novo”. “Não adianta. Quando emperra não tem mais jeito”. “Vou tentar”. “Tenta, não vai adiantar”. A menina voltou a empunhar a arma. Conferiu novamente se havia balas, abriu lentamente a boca, fechou os olhos e disparou. O impacto foi tão grande, que parte de seus cabelos voaram sobre a parede. O rapaz empalideceu instantaneamente. Queria ter sido o primeiro e foi pego de surpresa pela reação da arma. Com medo de ser encontrado antes de concluir sua própria execução, ele tirou friamente o revólver das pequenas mãos da menina e mirou-se. Mas a bala voltou a emperrar. Tec. Tec. Tec. Tec. Tec. Tec. “Merrrrda!!!!” Foi a última palavra que saiu de sua boca. No dia seguinte, ainda pela manhã, bateram na porta. O silêncio absoluto dentro do quarto chamou a atenção da camareira. Em pouco tempo, gritos desesperados do lado de fora atraíam cada vez mais gente para a porta do quarto. Não tinha jeito, teriam que arrombar. Após o chute desferido, a porta abriu-se. De um lado, uma poça de sangue e um corpo miúdo sobre ela. Na cama, de joelhos, o rapaz insistia em disparar a arma sobre a cabeça na tentativa de concluir o serviço inacabado.
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