Fragmento urbano XXIII
Precisava trair. Amava a mesma mulher desde que completou a maioridade, mas já não lhe agradava como antes aquela repetição de gestos e carícias. Sentia-se como se não houvesse mais nenhum ponto G a desvendar. Até os gritinhos que outrora o enlouqueciam, começavam a soar previsíveis demais. Era inevitável, estava envelhecendo. “Talvez um novo caso dê ânimo ao seu ego”, diziam os amigos. Todos eles traíram a vida toda sem qualquer constrangimento, como se nunca houvesse esposas antes das 11 da noite. Alguns, pensava ele, não deveriam suportar mais suas mulheres. “Aposto que nem a tocam mais”. Ele, ao contrário, era sempre recebido de braços abertos, com a alegria incondicional da mulher. Não discutiam relação, não brigavam, não desistiam do sexo diário do início. E, para ambos, a fidelidade era intrínseca demais para dar explicações. Até riam de Sartre e Beauvoir e seus amantes mútuos. Somente vez ou outra pensava na hipótese de sua mulher suportar a traição. Ela não tivera muitos homens antes dele e, pelo que sabia, todos eram cafajestes. A pulada de cerca, contudo, era sempre hipotética. Durante todo o casamento conviveu com a idéia de experimentar um caso extraconjugal. É bem verdade que não se perturbava por isso. Levava a vida contente com a esposa e trair se tornara mais uma fantasia distante, do que qualquer outra coisa. Somente às vésperas de suas bodas de prata resolveu arriscar alguma coisa “só pra ver o que dá”. Lembrou-se da Cidinha, que sempre o torturou com seus 20 anos a menos. A menina fazia as unhas de sua mulher todas as quintas. Quando chegava em casa, a mulher já estava no banho enquanto a bela manicure aguardava na sala. Antes, se limitava a um simples gesto de cordialidade e subia para o quarto. Desta vez, determinado a encarar o desafio, resolveu sentar-se com a jovem. Conversaram cerca de 15 minutos antes de ele a agarrar pelos braços na tentativa de beijá-la. A esposa só desceu quando ouviu os gritos da menina e coisas se espatifando no chão. Ele estava incontrolável, forçando encontrar a boca da menina em meio a braços e pernas que se moviam no ar. A esposa, do último degrau já pôde vê-los juntos. Ele por cima, ela por baixo. Ao perceber a presença da mulher, ele tentou se ajeitar no sofá enquanto ela limpava os lábios. A esposa, após um breve silêncio, pôs-se a gritar incansavelmente. “Sua vagabunda, como pôde me trair com o meu próprio marido?”. Ele, sem entender, tentava acalmar a mulher.
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