Fragmento Urbano XXV

 

4331 já tinha fechado o ponto quando foi atingido por uma peça da caldeira. Estava há três metros do seu posto de trabalho e sem os óculos de proteção, embora o corpo metálico tenha atingido o seu peito. 4331, que já havia sido notificado por ter entrado na sala do diretor todo sujo de graxa, morreu, segundo o laudo médico oficial, a caminho do hospital e, portanto, a lesão fatal ocorreu após o expediente e fora das dimensões da empresa. Seus colegas juravam que ele já estava mortinho quando o encontraram esparramado no corredor principal do galpão onde trabalhava. A última pessoa com quem 4331 conversou foi o 3556. Ao ser questionado sobre o motivo que levou 4331 a entrar sem autorização em outra área, 3556 disse que ele só ia levar uma broca para o 7769 antes de ir embora. Mas 7769, que há dias não aparece para trabalhar, está sem condições emocionais de responder. “Num lembro, mas acho que não foi nada disso que o 3556 tá falando”. 6213 o encontrou de bermuda e chinelos num posto de gasolina quando voltava para casa. “Para quem estava abalado, até que uma cerveja no fim de tarde vai bem hein”, disse 6213 a 7769 que preferiu não responder a ironia do colega. A família de 4331 pensava em consultar um advogado porque não entendeu direito a data da demissão do marido, ocorrida horas antes do acidente “por não respeitar os limites de suas funções”. Mas sua mulher se convenceu que demitido, sem equipamento de proteção, fora do posto de trabalho e com uma advertência no currículo, 4331, mesmo que estivesse vivo, não receberia um tostão da empresa. Os colegas mais sarcásticos brincavam em surdina que 4331 foi a primeira pessoa a ser demitida depois de morta. Antes da missa de sétimo dia, a viúva recebeu um cartão da empresa assinado pelo presidente. “Como prova de nossa generosidade e compromisso com a família de nossos funcionários, convidamos  você e seus filhos a conhecer o nosso lindo resort no litoral baiano. Serão três dias inteiramente grátis para que vocês encontrem novamente o caminho da felicidade e suportem a ausência do tão estimado 4331. Meus sinceros sentimentos”. 4331 prometeu aos filhos que este ano eles conheceriam a praia. A promessa veio bem antes do esperado.

Fragmento Urbano XXIV

 

O pai cruzava o bairro todo com uma Nossa Senhora Aparecida entre os braços. Com quase um metro de altura, fruto de um abençoado número de rifa, a imagem era levada diariamente ao altar da única igreja da qual dispunham os moradores. Guardava-a em casa para evitar que um furto como o do Natal do ano passado se repetisse, deixando o modesto templo da comunidade sem as devidas proteções. Divinas, diga-se, pois há muito tempo suas trincas estavam sob suspeita. Com o nítido abatimento, o pai aparentava ser muito mais velho que os homens da sua idade. “E pensar que há dez anos toda mulher queria tê-lo dentro de casa”.“Ficou assim por causa do filho”. Mesmo com o ar de abandono da fachada, ele ainda tinha a melhor casa do bairro, mas já não despertava interesse algum na vizinhança. Todos seguiram o exemplo de sua ex-mulher e deram as costas para a sua vida. No primeiro ano de separação, ele ia freqüentemente até o muro do condomínio onde a ex passou a morar, fumava um par de cigarros enquanto balançava negativamente a cabeça e ia embora. Depois que ganhou a santa de barro, apenas trocou o crivo pela água. Mas voltemos à sua casa. Em outras épocas, ela parecia pequena de tantos freqüentadores. Sua piscina, seu gramado, sua edícula eram uma espécie de clube dos excluídos. Hoje, o pai só pensa em viver num lugar menor, longe dos olhos desconfiados do mundo.“Não segura no pescoço, guri”, disse o pai para o menino que o ajudara a pular a cerca com a santa. Estava levando-a para a primeira missa de domingo do ano. O guri, inocentemente, perguntou sobre o sumiço do seu filho. Talvez ele fosse um dos únicos que ainda não sabia do seu paradeiro. “Vi seu filho semana passada”. Os dois, o guri e o filho do pai, chegaram a jogar bola juntos há alguns anos, apesar da diferença de idade. Enquanto os outros meninos da rua morriam de medo do filho,  o guri só conseguia lembrar do dia em que, todo ralado por um baita tombo de bicicleta, ele o levou ao hospital, desentortou o aro de sua magrela e ainda o ensinou a empinar sem ter o chão como desfecho. “Ele só veio pro indulto de Ano Novo”, se limitou a contar o pai. Nunca tinha ouvido falar na palavra indulto. Mesmo assim quis saber mais do cara que o fez ter moral com os outros moleques do bairro. “Quando ele vem de novo pra cá?”. “Talvez nunca mais”. O pai continuou sua caminhada até a igreja com a santa a tiracolo. O guri voltou para a casa com a pulga atrás da orelha. Afinal, onde é que estava o filho daquele homem? “Hoje ajudei o vizinho a carregar a santa”. “De onde você conhece ele?”.”Ué, ele mora aqui do lado”. “Nunca mais chegue perto dele”. Apesar do fato de carregar uma santa quase do seu tamanho, o guri não viu loucura no pai do filho que, segundo sua mãe, é um marginal.”Talvez esteja triste”. Também não entendeu por que sua mãe agora repudiava a convivência com o ex-pai, ex-marido da mulher que fugiu, ex-rico e quase ex-vizinho, não fosse pela condição geográfica que os uniam. Lembra-se muito bem de sua mãe pedir a garagem emprestada, a churrasqueira elétrica emprestada e o cortador de grama emprestado. “Só a garagem foi devolvida”, sussurrou o menino. O guri soube pelo pessoal da igreja que o filho realmente só veio passar o Ano Novo com o pai. Na tarde de 31, pai e filho, dizem, estavam sorrindo bastante, um com os braços entre os ombros do outro. Ninguém sabe ao certo, mas uma vizinha jura que o pai fez a comida preferida do filho, foi dormir e, quando acordou, o videocassete e a televisão não estavam mais na sala. Poucos dias depois, o filho voltou para a prisão.  

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