Fragmento Urbano XXVI

 

Após meses ser ter uma boa noite de sono, Morfeu finalmente conseguiu pregar os olhos. Nem seus antídotos de cabeceira evitavam a sua angústia transportada ao travesseiro. “Você está estressado. Os exames não apontam nada além de uma pequena enxaqueca. Tem certeza que você tem alguma coisa?”. “Não pode ser uma simples dorzinha de cabeça, doutor”.  Morfeu não suportava mais a cleptorrotina em que havia entrado. A cada nova consulta, mais e mais remédios eram indicados sem que a derradeira dor nos cornos ao menos diminuísse. De uns tempos para cá passou a freqüentar  benzedeiras, recadeiras, umbandas, candomblés, todos os santos, pais de santos e diabos que sua memória se dispunha. Sem perceber havia transformado sua casa num antiquário de receitas milagrosas. Sua mulher não sabia mais o que fazer. “Mor, não é melhor você voltar ao médico?”. “Jamais. Ele já me custou uma fortuna”. E a dor continuava a persistir. Em algumas épocas, o choro reprimido passou a não ter mais vergonha de sair da garganta. Esgoelava como um bebê aos prantos sobre o colo da mulher. Desolado, Morfeu chegou a pensar em se matar. “Pare de falar tontura. Onde já se viu se matar por causa de uma dorzinha de cabeça?”. Desde que a dor começou, Morfeu tem evitado a libidinagem da mulher. Apegou-se ainda mais aos seus amuletos e diz não ter “cabeça para essas coisas”. A dor continua a atormentá-lo, mas já não o impede de dormir. Os amigos mais próximos dizem que Morfeu estava com manha. Sua mulher desconfia que ele, enfim, aceitou a impotência. Hoje, ao menos, Morfeu consegue sonhar com os tempos em que não dormia de tanto desejo.

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