Fragmento Urbano XXVII

 

“Quantos anos você têm, moleque?”. “Vai logo, não enrola senão eu vou embora, dotô”. Os dois homens caminhavam discretamente pela praça central sob a luz forte das primeiras horas da manhã. Seguiam a passos lentos o fluxo da multidão e mal olhavam um para o outro. Os pés descalços e a forma descabida de andar davam um ar de malandragem ao mais novo. “Quantos?”. “Três por dois”. “Nem a pau”. “Três é trintão”. Caminhavam. O homem mais velho estava impaciente. Desconfiava da pouca idade do moleque. Quando foi à sua procura esperava encontrar um tipo menos esquelético, que fizesse jus à fama que atribuíam ao seu produto. Enfrentava-o com o olhar. O menino, de baixo para cima, retribuía a intimação com um sorriso irônico. “Vai logo, dotô, vai soltá ou não vai?”. O homem preservava uma boa aparência, talvez para não levantar suspeita sobre a sua movimentação ilícita. O moleque, apesar do desleixo e da baixa estatura, sabia como driblar  os outros homens que vigiavam a área. O pequeno ficou impaciente com a insistência do suposto granfino e ameaçava ir embora. “Tá bom, tá bom. Pega logo a grana e some daqui”. Sem dizer nada, o moleque enfiou as notas no bolso sem conferir e virou as costas. “Hei pirralho, tá querendo me passar pra trás?”. “Já entreguei o que cê queria. Tá dentro do paletó”. O homem apertou o passo em sua direção. “Tá me tirando, seu bostinha”. “Olha pro cê vê se não tá aí”. O homem pôs as mãos no bolso interno do paletó enquanto o moleque esnobava a sua autoridade ajeitando as notas vagarosamente. A compra estava realmente lá, com o número exato da solicitação. Antes de o cliente zarpar, o moleque ainda teve tempo de lhe mandar um recado cara a cara. “Da próxima vez, lembre que o patrão aqui sou eu”. Desceu do banco da praça e sumiu no meio dos transeuntes.   

Universo pelo buraco da fechadura III

Com a queda do buraco marginal, a pane literal do nosso sistema aéreo foi para a lateral das páginas do jornal. Enquanto não houver mais algum atraso nas linhas de vôo e enquanto o buraco não for tapado com concreto, a imprensa continuará atrasada e tapando o sol com a peneira.

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A tese sobre o fim do jornalismo impresso voltou à pauta dos críticos. Discordo. Enquanto as TVs forem as donas do dinheiro, os jornais serão os donos da verdade. Basta olhar a diferença na cobertura do Panamericano feita pelos canais de televisão em relação a dos principais jornais do país. Nem o rei da imprensa vermelha, José Datena, tem tempo para incluir uma notinha sequer nesse atentado público realizado pela Prefeitura do Rio. Talvez seja porque ainda não correu nenhuma gota de sangue.

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Mas nem só de desgraça vive o jornalismo. Esta semana encontrei em duas notícias simples uma pequena mostra do talento dos jornalistas brasileiros que, contrariando meus professores da faculdade, mostraram que noticiar o óbvio também pode ser um exercício de criatividade. Eis:

"Big Brother Buraco: a cobertura em tempo real da tragédia no metrô".

"Ronaldo troca as paellas espanholas pelas massas italianas".

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O Boninho, diretor do BBB, disse que o programa não pretende mais ser o centro de discussões sociais da audiência e resolveu logo só colocar tops na casa. A intenção era evitar que o público aplicasse no voto qualquer espécie de justiça social. A verdade é que a fórmula do programa corre o risco de estagnar com mais um ou duas edições. Agora é esperar para ver como se comportará a massa diante desta investida ainda maior em nome da futilidade.

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O carnaval de Salvador terá novamente o super DJ Fatboy Slim, que se encantou com a festança da capital baiana no ano passado. O inglês vai aproveitar para lançar seu CD em homenagem ao Brasil e patentear de vez a popularidade da música eletrônica no país. O baiano Gil deveria aproveitar a oportunidade e vender a patente do axé aos gringos que, a cada visita, fazem questão de legitimar "o apartheid" (sic. Carlinhos Brown) dos trios elétricos como fruto da cultura nacional.

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