O dilema da vagabundagem não assumida

 

Estou há meia hora intacto na frente do computador. Não fosse pelo leve movimento dos meus dedos sobre o teclado, meu estado poderia ser considerado semivegetativo. O semi fica por conta de eu ainda pensar, embora em nada que seja útil para o andamento da empresa. Mas voltando à tela do computador, todos à minha volta devem estar realmente trabalhando, enquanto eu, mesmo cheio de pendências, estou fingindo digitar um relatório ou algo parecido. Não é culpa minha. Tentei fazer o que pude até minutos antes de escrever estas linhas. Agora, 15:58 desta tarde quente de terça-feira, estou apenas aguardando o momento de olhar para minha chefe, apertar o disquetinho do Word pra fingir que estou salvando algo e ir embora pra minha casa descansar deste árduo fingimento. É, quem é adepto desta prática sabe do que eu estou falando. Fingir que trabalha cansa muito mais do que trabalhar porque não se pode não trabalhar sossegado. Tem que fingir. E isto é horrível. 16:00. Tenho mais uma hora e meia de expediente e, no entanto, já não tenho o que fazer por hoje. O pior é que as pessoas me olham como se eu estivesse trabalhando. Já perdi a conta de quantos cafezinhos me obriguei a tomar pra ‘me manter acordado’ e quantos copos de água empurrei goela abaixo só pra me dar vontade de ir ao banheiro. Até aí, tudo bem, pois todos se entopem de cafeína e mijam o dia todo. Ah, como eu ainda queria ter um cigarro agora só pra acompanhar a rodinha que se concentra lá do lado de fora. Ficaria com ele apagado uns 10 minutos e quando fosse acender iria procurar fogo do outro lado da fábrica. Às vezes penso se eles estão fingindo como eu. Não, não pode ser. Alguém tem que trabalhar senão a coisa descarrila. Como eu queria estar em casa agora, largado no sofá, assistindo “Querida, estiquei o bebê” e sem qualquer tipo de culpa por não trabalhar de verdade. Mas não posso. Ainda são 16:14. E por isso estou aqui. Fingindo que trabalho enquanto os outros trabalham de verdade. Foda-se. No fim dá tudo na mesma.

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