O carnaval não deixa cinzas
O rito da carne. O grito do corpo. O giro do couro. O mito da alma canibalizada que agrega valores de forma impensada. Três, quatro, cinco, dez dias beirando a noite de folia com foliões incansáveis que oferecem a carne do corpo ao giro do couro. Não se pensa carnaval. Não se pensa durante o carnaval. Carnaval é aritmética, não filosofia. Carnaval é o instante momento da fuga da alma. Dois mais dois. Be a bá. Equação corporal que nos varre da lógica. Momento para embriagar-se do porre da vida regrada sem ter que pensar. Reduto original das desorigens históricas de funks e axés contagiando anônimos abundantes com qualquer coisa além da bunda de fora. Nada mal para um cartão-postal que tem seu quê de sexual embora haja a contracorrente transversal que abomina a utopia deste mito tropical. Os gritos anti-farra padecem no lodo do ostracismo passional de cineminhas e pipocas enquanto a multidão quebra o silêncio para deleitar-se da irracionalidade temporária. Animais que não se prezam sem prazer. Intelectuais que não se privam sem pavor. Eis a luta de classes nacional. Se entreguem pseudocaretas a qualquer que seja o ritmo. Pensem no país seus desvairados ociosos. Enquanto estes dois slogans ecoam pelas ruas, o carnaval se apropria, muito embora impropriamente, de tudo a sua volta. Pois convenhamos. O carnaval não é nosso nem dos outros. O carnaval não é sambódromo. Não é frevo. Não é tradição. O carnaval simplesmente se autoproclama. O carnaval não deixa cinzas. O carnaval não existe.
*texto de estréia deste blog, publicado originalmente em 13/03/06 e agora reescrito para atender às novas opiniões formadas sobre tudo deste autor
Voltar
O primeiro gesto, o primeiro verbo, o primeiro porre. A primeira dança, a primeira transa, a primeira pança. O início das coisas é o fim de algo que não viveremos mais. É o velho renovado, o resultado descartado, a roupa curta sobre um novo corpo, o calçado apertado com dois dedos de sobra nos pés do outro. O novo fascina, surpreende e vicia. Mudar de casa, de travesseiro, da postura responsável pela insistente mania de não querer mudar. “Tá bom do jeito que tá”, dizemos quando a imaginação já não suporta a idéia de ter que se adaptar às coisas e às pessoas. Devemos mudar os planos sem mudar de rumo, devemos mudar de rumo toda vez que os planos forem equivocados. Agir por impulso é uma das formas para parar de pensar no amanhã. Deixamos tudo de lado para viver insistentemente os mesmos carnavais, os mesmos quintos dias úteis, os mesmos cafés e rituais que há anos não suportamos mais. Queremos ser originais e acabamos nos repetindo. Queremos ser autênticos e quando percebemos estamos cultivando os nossos próprios clichês. A sensação inusitada de voltar a estudar me fez voltar também à vida. Estava quase sendo absorvido pela cultura do sofá quando me matriculei, meio sem dinheiro, meio sem vontade no curso de pós-graduação. Bastou duas aulas para que o espírito de aprendiz rejuvenescesse dentro de mim. E já faz efeito. Originalmente escreveria sobre a morte absurda do menino no Rio. Mas resolvi mudar de planos.
![]() | |||
|
|||