Nada é tão triste quanto uma rodoviária
O estado terminal das despedidas súbitas, dos reencontros fugazes que nem sequer olham para trás, das idas e vindas de quem vive sob o vaivém das caravanas que percorrem a nossa própria estrada. Ponto de partida de quem sempre vai e de quem jamais veio ou foi pela primeira e última vez. Solo esmigalhado pela sola da repetição exaustiva que nem repara em sua nova cor. Campo de batalha entre o entusiasmo e o cansaço, a euforia de chegada quebrada pelo gelo do adeus acenado da janela. As rodoviárias são ambíguas, idílicas quando estão vazias, dias em que é possível admirá-las, passando o tempo a procurar vasos enrustidos com suas flores quase murchas de descaso, ou a chorar o dilúvio fétido de seus sanitários e, quem sabe, beber o café morno de suas lanchonetes requentadas pela pressa de quem tem de partir. Ao som estridente daquelas vozes anônimas que nos lembram a hora, as rodoviárias tornam-se céticas apesar das tantas almas humanas que rastejam sob os seus pés. Não há esbarrões que interrompam o uníssono de homens e máquinas. Conhecer alguém na rodoviária é o maior dos equívocos das relações humanas. Lugar de corações desabrigados, de futuros incertos, as rodoviárias já nascem por não atender às expectativas dos casais apaixonados. Amor de rodoviária é apenas a angústia e o alívio de ver ou rever alguém. Por isso só se ama antes ou depois da rodoviária. E não importa o destino. Em toda viagem as cidades ficam e as rodoviárias se apagam na memória. As rodoviárias não são como os bares que criamos vínculo pelas pessoas que o freqüentam. Rodoviárias autênticas são apenas lugares que encontraram um meio termo entre praticidade e beleza. Na verdade, as rodoviárias são como bancos, com seus inúmeros guichês enfileirados, com sua gente impaciente esperando a vez, sobretudo nas pequenas onde muitos incorporam aquele ar canino de abandono do lugar. De certo modo, nos incomoda falar de rodoviária. Por mais que se esforcem elas sempre serão templos de tristeza movidos pelo diesel de seus verdadeiros vilões. É, pensando bem, talvez as rodoviárias não fossem tão tristes se não houvesse em seus pátios os ônibus que nos levam tanta coisa embora.
![]() | |||
|
|||