Fragmento urbano XXVIII
A poucos quilômetros da casa ele ainda esboçava algumas frases no pensamento. “30 anos e, sem mais nem menos, venho bater à sua porta!”. Cada detalhe do percurso fazia com que suas mãos estremecessem no volante. A antiga escola transformada em estacionamento, a pracinha do bairro esmiuçada pelos arranha-céus que se constituíram à sua volta, as pequenas ruas de paralelepípedo encobertas por movimentadas avenidas. À medida que se aproximava de seu destino, as lembranças do tempo em que viveu com o pai umedeciam seus olhos sem que, no entanto, qualquer lágrima viesse a cair. Sabia que não encontraria aquele homem cheio de vitalidade que o fazia ver o mundo dos seus ombros. Desde de que partiu para a capital, havia o enclausurado numa lixeira mental. Até o dia em que resolveu pegar o carro e visitá-lo novamente era incapaz de pensar no pai com a intimidade de antes. “Ah, pai... como pude deixá-lo abandonado todo esse tempo”. Parou o carro a algumas quadras da casa para poder observar a pé a rua toda. Já não havia terrenos baldios ou trechos sem asfalto. Os vizinhos não eram os mesmos e as antigas figueiras que ocupavam boa parte do quarteirão deram lugar a pequenas faixas de grama sobre a calçada. Os portões de meio metro que a molecada costumava usar como assentos para as conversas de fim de tarde tornaram-se paredões eletrificados. Todas estas mudanças o angustiavam imensamente. As imagens que esperava encontrar eram aos poucos substituídas pela nova paisagem que se constituíra no lugar. Quando avistou a casa em que viveu boa parte da sua vida, ele se estatelou ao chão. Ela estava exatamente como a tinha visto pela última vez. As roseiras entrelaçadas à janela, os tijolinhos expostos da fachada, as cadeiras estofadas dispostas à frente da entrada principal. Até a cadeira de balanço, embora um tanto enferrujada, permanecia a adornar o singelo jardim que sua mãe cultivara até morrer a caminho do supermercado. Empurrou o pequeno portão de madeira de modo que o ranger das velhas dobradiças não atiçasse a atenção dentro da casa. Queria surpreender o pai com a visita, pedir desculpas e recomeçar uma nova fase do relacionamento interrompido sem muitas explicações. “Talvez eu tenha sido orgulhoso demais”. Permaneceu imóvel por alguns minutos antes de bater na porta. “Estava te esperando. Entre, o café está na mesa”. O pai não aparentava qualquer ressentimento, tampouco surpresa ao rever o filho. “Sua mãe não veio com você? Ela saiu para comprar leite e até agora não voltou”.
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