Fragmento Urbano XXIX

 

O cheiro insuportável interrompera novamente o almoço dos Batista. No mesmo instante, a oficina ao lado cessara o estalar insistente das ferramentas na tentativa de compreender a origem do incômodo. “Deve ser o bueiro”. “Pra mim tem algum bicho morto entalado nos encanamentos da rua”. O vento surgia para aliviar o mal estar soprando para longe o odor fétido que ali se instalara. Mas ele voltava. Insistia em permanecer inerte sobre as narinas atentas dos moradores do bairro, que logo se puseram à rua protestar inutilmente contra a origem do despautério. Após longas explanações, decidiram por bem da comunidade investigar de onde vinha aquela nuvem desagradável. Reviraram lixos, encheram caçambas com todo entulho acumulado durante anos, jogaram fora praticamente qualquer objeto que pudesse ser o responsável pelo ocorrido. Mas o cheiro persistia. E o alvo passou a ser então os próprios moradores. Todos tentavam impor aos olhos dos outros a plenitude do ambiente que cultivavam. Em vão. Com os dias, a coisa se descarrilou rumo ao insuportável. Não havia mais jeito. Todas as casas teriam que ser fiscalizadas. E assim o fizeram. Uma comissão foi instituída para visitar os lares, mas, ao contrário do que supunham, somente mais dúvidas incorporavam-se à mente coletiva. “Não é possível”. Sem respostas, o tempo acabou servindo de remédio e consolo. Conviver com o cheiro passou a ser naturalmente aceito e ninguém mais sentia ânsia ou náusea ao ser atingido por aquela brisa cadavérica. Não demorou para que a sua ausência, por mais breve que fosse, se tornasse o verdadeiro incômodo. A podridão, enfim, tornara-se atávica.  

 

Um bom banheiro para a vida toda

 

Ah, como nos são úteis os bons banheiros. Tudo se passa diante dos olhos quando estamos quase ajoelhados diante de um bom banheiro que nos atenda as necessidades fisiológicas. Toda pressa do mundo parece ir embora bueiro abaixo quando temos um bom banheiro para nos consolar. Diante da privacidade das privadas, resolvemos até os assuntos que ainda nem digerimos. Com os bons banheiros, a vida prolonga-se além do ato depravado de regurgitar as entranhas pela porta de baixo. Também são nos bons banheiros que encontramos a chance de limpar corpo e mente e nos preparar para o próximo alimento que nos sacie. É no exato momento da migração fecal de nossos erros que ocorre a inversão lógica de pensar sobre as abstrações das formas que nos saem de dentro. Os assuntos de casa são postos em evidência com o bom banheiro do trabalho. As pendências do trabalho são eliminadas de maneira disentérica no bom banheiro de nossas casas. Em nosso trono oficial, somos nós mesmos sem frescura ou perfumaria. Ah, como é difícil não ter um bom banheiro por perto quando mais precisamos. Sua ausência nos vira o estômago, nos aperta as tripas e nos causa calafrios indesejáveis. Um verdadeiro bom banheiro é limpo e transparente, embora não seja necessariamente um bom banheiro para toda a vida. Estes sabem ouvir tudo o que falamos sem nos cobrar nada. Seus conselhos são como recados dispostos na parede que nos dizem exatamente a maneira como devemos agir no minuto seguinte. Os bons banheiros de fato são humanamente imperfeitos como nós, seres humanos  inconsistentes como as nossas merdas de cada dia.

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