Entre canteiros e memórias
Olhando-a assim, meio de “esgueio”, que é como muitos dizem por lá, não se vê muito além de suas grandes palmeiras, fincadas rigorosamente ao solo, como se aquela convicção interiorana de seu povo também pudesse nutrir suas raízes inertes ao tempo e ao envelhecimento. Epicentro de um lugar condenado pela ausência de novos lugares, ela preserva, além do título exclusivo de mantenedora da vida social, a esperança nostálgica e oculta dos moradores da cidade.
Seu nome, Tiradentes, mais do que uma mera homenagem ao personagem histórico, é também uma representação fiel do seu ambiente de estrangulamento cultural. Condenada a ter hasteado ao seus pés o nome do mártir revolucionário, a praça Tiradentes está também condenada ao fim trágico das recordações. Sua história (e suas estórias) é sempre conjugada à distância, mesmo por quem ainda a tem por perto. As novas gerações, sem perceber, a entregaram de bandeja ao passado, sem almejar qualquer esforço para torná-la a referência óbvia e necessária que já foi um dia.
Mas esta pequena praça de Conchas consegue, contra todas as evidências, se assegurar como símbolo, concentrando uma infinidade de particularidades que está muito além de seus canteiros, de suas plantas, ou de seu franzino e judiado coreto. Todos que por ali passaram tem ao menos uma grande ocorrência a ser registrada. Casais que, circulando em sentidos opostos, encontraram um rumo. Amigos que perderam o rumo bebendo entre os seus bares. Brigas e intrigas, rogas e drogas, comícios e suplícios, tudo por ali ocorre sem a obrigação de ter ocorrido. Tudo por ali jamais seria fato se, de fato, não houvesse nas entranhas de seus personagens a confirmação de sua existência. Por isso, aquela praça não deveria jamais ser um lugar para estranhos. Sua presença física deveria servir apenas para que todos projetem seus sonhos. Porque a praça é, mais do que tudo, a personificação da sua gente.
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