O lugar comum de dois lugares
_Fala muleke, como estão as coisas aí em São Paulo?
_O mó caos de sempre, tá ligado, só que agora o motivo é outro, o papa.
_É, o Rio ficou assim quando os Stones vieram para cá. Sa’ qualé né, o Rio não tem muito tempo pra discutir futilidades doutrinárias. Aqui a gente vive correndo...caô geral.
_Você acha a visita do papa uma futilidade? E correndo de que, de bala perdida?
_Tá marrento hoje hein! Vai me dizer que tu acredita na conversinha mole do Bento XVI? Então vai lá no Pacaembu ver o tiozinho manero e aproveita pra pedir paz porque tu tá muito estressado. Enquanto isso eu vou pro Maraca tirar uma onda. Ehehe...
_É, tipo, se eu tivesse o tempo que você tem iria mesmo ver o papa...
_Tá me chamando de vagabundo cumpadi ?!? To sem trampo, mas é por pouco tempo.
_Desculpa, não quis dizer isso...
_Aliás, tu sabe de algum lugar que tá precisando de jornalista aí em Sampa?
_Até tem, mas eles pedem endereço daqui e você com esse sotaquezinho não vai convencer, tá ligado. Se ainda fosse mulher...
_Tu é bem folgado hein...dessa vez passa.
_Eu to é cansado. To até pensando em dar um pulinho aí no Rio qualquer hora. Tem lugar na sua casa?
_Até tem, mas tu sabe como é né. Paulista e branquelo como tu infiltrado aqui no meio da malandragem não vai dar certo.
_É, acho melhor eu ir pra Ubatuba na casa da minha mãe. Ela foi pra Aparecida garantir um lugar bem na frente de onde o Papa vai rezar a missa, tá ligado.
_Meu coroa fez a mesma coisa no show dos Stones. Ficou amarradasso com os caras pulando no palco. Aquele dia foi demais, praia, cerveja, baseado e rock and roll!! Só aqui mesmo pra ter um show desse tipo. Ah, mas não se preocupe. Talvez o papa dê seus acordes na missa. Fiquei sabendo que ele toca piano...ehehe
_É melhor eu desligar. Tenho uma reunião marcada daqui há meia hora.
_É, e eu combinei de levar uma paulista até o Cristo Redentor. Ela veio aqui pra uma convenção e se amarrou me vendo jogar futvolei. É mole?
_O meu chefe tá me chamando. Vou desligar.
_Se você soubesse como ela é linda...diz que odeia São Paulo e talvez até fique aqui mais um pouco depois da convenção. Tu acredita que ela veio ver os Stones e ficou do lado de casa?
_Sabe, eu acho que você deveria rezar um pouco...
_E eu lá acredito nestas coisas! Isso é coisa de paulista que não tem o que fazer. Fui...
Vida que segue...
O que dizer quando o silêncio que conforta só adia o sofrimento? O que fazer quando não há o que reverta a inércia dos constantes atos falhos que nos consomem às pressas? Agimos por impulso puxando o gatilho da euforia que nos mata a cada dia. Agimos por impulso desatando os nós das vidas que nos suportam há anos. Agimos por impulso nos atirando do mais alto precipício de angústias e frustrações. Então para quê? Hoje só quero a racionalidade do travesseiro, do café da manhã, da hora exata de fazer as coisas, da vida simples sem aditivos. Enfim, quero os meu próprios clichês de volta. Nunca pensei que diria isto, mas hoje quero que os acasos a la Leminski vão praputaquepariu...
BAR
cada gole engole o mundo de quem bebe a liberdade com quem ama de verdade o gosto forte na garganta que levanta sentimento arrumando argumento para não poder parar de trocar filosofia e botar mais uma bebida que embriaga a ferida que não quer cicatrizar...
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