Cobertura full time da extraordinária bandalheira televisionada
Os operadores da navalha preparam seus metais para mais um dia de batalha. Cortarão nossas carnes trêmulas com a rigidez de suas convicções. A noite promete ser a maestria sui generis das regências partidárias. Os holofotes estouram sobre a oficialidade dos atos à frente do palco. Reza-se um versículo qualquer, jura-se o inverso cruzando os dedos sobre os bolsos escondidos dos paletós, e a sessão começa. Os uivos das respeitabilidades dão o tom da prelazia. Palavras ao léu, apartes e moções ninam a platéia para o esculacho. Na pauta, as obras do PAC, sob o pacto do crescimento que demora a causar impacto, a luta das lágrimas ministeriais que nos seca e disseca no lamaçal das boas intenções e aquela conversa mole das hidrelétricas que apenas goles de água benta conseguem empurrar goela abaixo os miolos de pão que roçam as gargantas inflamadas do populacho. Ah, mas a ordem do dia é a navalha. O corte abrupto nas entranhas do óbvio, na certeza de que não será a última a morrer de CPI. Fazer o que. Somos nós as multidões, somos nós os filhos únicos das causas e descasos. Pois se não estamos nem aí para a música que sopra a poeira para debaixo dos tapetes, se gritamos “chega” apenas do quarto ou do banheiro aos engravatados da vez, a situação só se agravará. A greve continuará restrita aos campos e aos campus e a sessão continuará em clima de jam session...
Em coma, na cama
5:58. O despertador toca mais uma vez. Penso no dia que vem pela frente. Tento lembrar alguns sonhos absurdos, mas a imagem que vem à cabeça é a minha incansável repetição de gestos matinais. O despertador toca, estico os braços, continuo na cama por mais alguns minutos, reclamo em silêncio. Que merda ter que acordar tão cedo para mais uma segunda, mais uma semana inteira de trabalho! O pior é que não consigo tirar o fim de semana da mente – e do corpo. A ressaca me torturará até pelo menos quarta-feira. “Não há remédio nem solução para ressaca”, penso. 6:07. Ainda não levantei da cama. Olho fixamente para o teto e a minha vontade é desistir de acordar. Lembro dos trabalhos que terei que fazer, dos livros que pretendo ler, das mulheres que jamais conheci. Queria ser Proust, Verne, mas não passo de um reles frustrado pela obrigação de acordar cedo. Agora tenho menos de 15 minutos para pular da cama, tomar banho, me trocar e partir em direção ao ponto de ônibus. Mal reparo no belo dia que se inicia. Às vezes falo sozinho, “de que adianta um belo dia para quem tem que acordar cedo e ficar enfurnado num escritório?”. Cada segundo é uma eternidade quando tenho que levantar. 6:27. Saio de casa às pressas, sem café da manhã, sem pentear o cabelo e ninguém para despedir ou prometer voltar. Faria tudo para continuar dormindo. Mas não posso. Devo seguir a rotina sem questionamentos ou decepções, como alguém que se levanta de um sonho após anos tentando acordar...
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